# Zuenir Ventura morre aos 95 anos no Rio; veja causos e legado

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- Published: 2026-09-26T04:10:20-04:00
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O jornalismo e a literatura do Brasil perderam uma de suas figuras mais brilhantes.**
Zuenir Ventura** faleceu na capital fluminense, aos 95 anos, deixando uma legião
de admiradores e colegas que rapidamente lotaram as plataformas digitais, emissoras
de rádio e TV com tributos comovidos. Reconhecido pela generosidade ímpar, paciência
infinita e vocação para instruir as novas gerações, o veterano era carinhosamente
tratado nas redações como Mestre Zu.

## Retrato do Brasil e consagração literária

Ao longo de mais de 50 anos dedicados à apuração minuciosa, o repórter produziu 
obras cruciais para a compreensão da história recente e dos dilemas do país, dedicando
atenção especial a fraturas como a violência nas cidades, as ameaças contra as instituições
democráticas e o abismo social. Dessa produção surgiram títulos seminais, a exemplo
de _1968: o Ano que Não Terminou_, _Cidade Partida_ e _Chico Mendes: Crime e Castigo_.

Com atuações laureadas nas áreas de **direitos humanos**, escrita documental e crônica,
o autor teve sua trajetória coroada em 2015, quando passou a integrar a **Academia
Brasileira de Letras (ABL)**, ocupando a cadeira de número 32.

## Humor afiado e tabelinha com Veríssimo

Paralelamente à precisão estilística e à sensibilidade jornalística, Zuenir cultivava
um temperamento cômico irresistível. Era um narrador nato de anedotas, capaz de 
inserir toques ficcionais em seus relatos orais apenas para entreter a plateia e
arrancar gargalhadas, sem qualquer desvio ético.

Essa veia encontrou sintonia total em **Luís Fernando Veríssimo**. Durante décadas,
os dois dividiram debates, encontros literários e conversas sociais em uma dinâmica
de cumplicidade invejável: a espontaneidade expansiva do jornalista mineiro combinava
com as intervenções cirúrgicas do escritor gaúcho. Não raro, uma mesma situação 
cômica era narrada por ambos em ocasiões distintas, invertendo apenas quem ocupava
o papel principal da história.

## As confusões cômicas na Flip

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) serviu de palco para muitas dessas
passagens divertidas. Em uma dessas ocasiões, abordado por uma moça que suplicava
por uma dedicatória, Zuenir indagou qual era a sua obra predileta. “O Menino Maluquinho”,
disparou ela. Com espírito esportivo e decidido a preservar a satisfação da leitora
que o confundia com Ziraldo, ele assinou: “Para Fulana, minha fã, um beijo”, completando
a firmação com uma solitária letra Z.

O próprio Ziraldo foi alvo de sua ironia quando os dois assistiam ao Festival Internacional
da Canção no Maracanãzinho e o criador do Maluquinho foi ovacionado por uma multidão.
Tempos depois, ao lançar um livro sobre o sentimento da inveja, Zuenir confessou
o comentário que havia feito na época ao colega: “Você saiba que tinha um sujeito
lá em cima que estava te vaiando, eu vi”.

Sua fisionomia esguia e a calvície também eram matérias-primas recorrentes de piada.
O cronista gostava de relatar como frequentemente era tomado por Millôr Fernandes,
Drauzio Varella ou até José Saramago. Certa vez, cercado por um grupo entusiasmado
de admiradoras que tiravam fotos e elogiavam seu trabalho em Paraty, viu a euforia
cair por terra no instante em que uma delas berrou para uma amiga: “Fulana, vem 
aqui conhecer o Saramago”.

## O dia em que a imprensa ‘matou’ o repórter

Nem mesmo uma falsa notícia sobre seu falecimento abalou a serenidade bem-humorada
do autor. Em 1999, um profissional iniciante de imprensa ligou para um contato desatualizado
para colher uma declaração de Zuenir. Uma desconhecida que atendeu a chamada afirmou,
sem qualquer fundamento, que o jornalista havia morrido em um acidente de trânsito
na Lagoa Rodrigo de Freitas. A informação foi divulgada sem checagem prévia e se
alastrou pelos veículos de comunicação.

Enquanto a notícia corria, Ventura participava, ileso, de uma cerimônia fechada 
à imprensa no Instituto Moreira Salles (IMS), que contava com a presença de Fernando
Henrique Cardoso, então chefe do Poder Executivo federal. Pouco a pouco, os profissionais
de mídia reunidos do lado de fora foram avisados de que o colega estava no local.

O episódio foi transformado em crônica pelo próprio Zuenir:

“Lá pelas 9 horas da noite — eu tinha morrido às 16h — a imprensa descobriu que 
eu estava no IMS e não no IML. Do lado de fora, dezenas de repórteres e fotógrafos
aguardavam o presidente atrás de um cordão de isolamento. Veio então uma ordem das
redações para que falassem comigo; não valia mais a versão; eu tinha que ser ouvido
ao vivo, se é que a expressão ainda se aplicava a mim. Naquele momento, eu era mais
importante do que o presidente, o governador, o prefeito e quem mais estivesse lá
dentro. Afinal, não é todo dia que se vê alguém morrer e ressuscitar em cinco horas.
O recorde era três dias, mas fora batido há muito tempo”.

Completando o relato sobre a inusitada experiência de ler o próprio obituário, ele
concluiu:

“Já de madrugada, abri o computador e vi a descrição da minha morte; era tão precisa
que não tive dúvida: devia ser verdade. Uma agência séria não colocaria no ar um
boato desses.”

O passamento definitivo agora registrado deixa uma lacuna imensa nas letras e na
imprensa nacional, encerrando a caminhada de uma voz lúcida, generosa e eternamente
bem-humorada.
