# Trumponaro: como um governo de Flávio pode imitar a presidência de Trump no Brasil?

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- Published: 2026-10-13T15:18:51-04:00
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Enquanto apoiadores do presidente Lula se mobilizam para reverter os resultados 
do primeiro turno da disputa presidencial e garantir um quarto mandato liderado 
pelo Partido dos Trabalhadores, acho importante considerar que tipo de presidência
o Brasil teria caso Flávio Bolsonaro fosse eleito em 25 de outubro.

Obviamente, todo cenário político nacional é único. Um eventual futuro governo Bolsonaro
poderia ser bem diferente da forma como Donald Trump tem governado desde que retornou
à presidência em 2025. No entanto, dada a afinidade declarada da família Bolsonaro
com o clã Trump — bem como com suas políticas e práticas —, vale a pena considerar
em que medida um novo presidente, governando com uma forte base de extrema-direita
no Congresso, poderia adotar elementos da cartilha política de Trump, caso suba 
a rampa em 1º de janeiro de 2027.

Observadores políticos vêm notando uma defasagem de dois anos entre os eventos políticos
recentes nos Estados Unidos e no Brasil. Trump assumiu o poder em 2016; Jair foi
eleito dois anos depois. Biden derrotou Trump em 2020; Lula venceu as eleições de
2022. Apoiadores de Trump invadiram o Capitólio em 2021; o exército de defensores
de Bolsonaro invadiu Brasília dois anos depois, em 2023. Trump retornou ao poder
em 2025; o Brasil poderá enfrentar uma nova presidência de Bolsonaro em 2027. Embora
processos históricos distintos raramente apresentem uma relação de causa e efeito
tão nítida, parece que os dois campos de extrema-direita mantêm um diálogo constante
sobre a melhor forma de conquistar e consolidar o poder.

Trump rapidamente celebrou a vitória de Bolsonaro por uma margem de 1,9% em 4 de
outubro, embora, na mensagem publicada nas redes sociais, tenha confundido o Brasil
com a Índia: “125 milhões de pessoas votaram hoje no primeiro turno da eleição presidencial
da Índia. Os resultados saíram logo após o encerramento da votação, no MESMO DIA!”
Ele também aproveitou a ocasião para fazer comentários bombásticos sobre uma de 
suas principais obsessões: “Em Detroit, Filadélfia, Califórnia e em inúmeras outras
cidades e estados dos EUA, os resultados — com números muito menores — frequentemente
levam semanas para serem fraudados… digo, calculados. A votação na América é CORRUPTA!!!”

Enquanto Jair Bolsonaro baseou parte de sua campanha eleitoral de 2022 em críticas
à confiabilidade do sistema brasileiro de votação eletrônica, o campo da direita
manteve-se em silêncio sobre o processo de votação desta vez. Parece haver fraude
eleitoral quando se perde, mas não quando se ganha. Ironicamente, Trump elogiou 
as eleições brasileiras por utilizarem procedimentos de votação que o próprio presidente
dos EUA classificou como fraudulentos em seu próprio país.

Se os apoiadores de Lula reverterem o resultado do primeiro turno e vencerem por
uma margem estreita no segundo turno, tanto Bolsonaro quanto Trump contestarão o
resultado. A Casa Branca poderia insistir que o segundo turno das eleições brasileiras
foi fraudulento e que Bolsonaro foi legitimamente eleito presidente, o que provocaria
uma crise nacional e internacional sobre a legitimidade do novo governo de Lula.

Já se Flávio Bolsonaro derrotar o presidente Lula, provavelmente seguirá o exemplo
de Trump, revertendo quase todas as políticas e programas do governo atual. A exemplo
da ordem executiva de Trump emitida em 20 de janeiro de 2025 — seu primeiro dia 
no cargo —, concedendo perdão aos apoiadores que invadiram o Capitólio dos EUA na
tentativa de anular os resultados da eleição presidencial americana de 2022, Flávio
prometeu um perdão presidencial para seu pai (condenado por organizar uma insurreição
contra o novo governo Lula) e para aqueles que invadiram a Praça dos Três Poderes
em apoio ao plano de Bolsonaro.

Embora um perdão presidencial possa extinguir a pena de prisão restante de Jair 
Bolsonaro, ele não anularia a condenação do Supremo Tribunal Federal nem restauraria
seus direitos políticos. Portanto, os aliados políticos de Bolsonaro poderiam buscar
uma anistia legislativa que restaure plenamente a elegibilidade de Jair Bolsonaro.

## **Flávio pode governar pela vingança, assim como Trump **

Logo no primeiro dia de sua presidência, Trump anunciou uma campanha de vingança
contra seus oponentes políticos, por meio de ações judiciais retaliatórias e de 
outras medidas administrativas. Flávio pode repetir essa estratégia.

### **Alvo 1: Moraes**

No Brasil, sem dúvida, o primeiro alvo seria Alexandre de Moraes, que conduziu o
julgamento e condenação de Jair Bolsonaro. Como o ministro — juntamente com outros
membros do Supremo, incluindo dois indicados pelo pai de Flávio — está envolvido
no escândalo do Banco Master, Flávio pode utilizar esse cenário para pressionar 
um movimento de impeachment contra Moraes. 

O ministro já é um alvo declarado da família. O irmão de Flávio Bolsonaro, Eduardo—
atualmente foragido da Justiça brasileira e vivendo nos Estados Unidos —, juntamente
com Paulo Figueiredo, pressionou com sucesso a Casa Branca de Trump para que impusesse
tarifas de 50% ao Brasil, condicionadas à retirada das acusações contra Jair Bolsonaro.
Eles também convenceram o governo dos EUA a aplicar a Lei Magnitsky ao ministro 
da Suprema Corte, impondo-lhe sanções financeiras severas por supostas violações
de direitos humanos, embora Jim McGovern — o congressista americano autor da legislação—
tenha declarado nas redes sociais que a lei não se aplica a este caso.

### **Alvo 2: movimentos sociais**

Outro alvo da ofensiva direta de Trump tem sido as organizações da sociedade civil
que criticam as políticas do presidente. Flávio pode repetir esse ataque aqui no
Brasil.

Durante o mandato de Jair Bolsonaro, o presidente já atacou movimentos sociais ambientalistas,
que chamou de organizações terroristas. Devemos esperar que essa investida se intensifique
significativamente caso Flávio chegue ao poder.

### **Alvo 3: Constituição**

Desde o seu retorno à Casa Branca, a estratégia política de Trump tem sido adotar
medidas que parecem violar flagrantemente a Constituição dos EUA: tentativas de 
negar a cidadania a pessoas nascidas nos Estados Unidos, a imposição de tarifas 
de 50% em 2025 sem aprovação do Congresso e o congelamento de verbas autorizadas
pelo Legislativo, entre outras medidas.

Flávio Bolsonaro declarou que pretende alterar a Constituição e mencionou algumas
possíveis medidas legislativas, embora mantenha seus planos gerais em termos vagos.
Diante da tentativa de insurreição de 2023, que violou os princípios fundamentais
da Constituição de 1988, resta saber se ele respeitará o Estado de Direito, especialmente
tendo um grande bloco de apoio de extrema-direita no Congresso. 

### **Alvo 4: Imprensa**

A liberdade de imprensa também pode sofrer ataques, visto que Trump baniu veículos
de comunicação cuja cobertura de seu governo lhe desagradava. Até o momento, a grande
mídia brasileira não parece muito preocupada com essa ameaça à liberdade de expressão
e à liberdade de imprensa, e vários grandes conglomerados de mídia demonstraram 
preferir Flávio a Lula.

Mas se o primeiro for eleito e decidir perseguir quem faz reportagens desfavoráveis,
quem o impedirá? Com a maioria no Congresso e uma Suprema Corte em desordem, não
há mecanismos de controle do sistema capazes de impedir que o possível futuro presidente
desfira um ataque frontal à liberdade de imprensa ou aos críticos mais contundentes
da extrema-direita no país. 

### **Alvo 5: Programas sociais**

Quando Trump retornou ao poder nos Estados Unidos, trouxe consigo um plano detalhado,
o Projeto 2025, concebido para reduzir o tamanho do governo federal e eliminar programas
que os conservadores consideravam incompatíveis com sua agenda. Trump convocou Elon
Musk para realizar o “trabalho sujo”, e o trilionário obteve grande êxito ao cortar
drasticamente programas governamentais e os empregos das pessoas que garantiam o
sucesso dessas iniciativas. O grupo político de Bolsonaro anunciou a intenção de
cortar gastos públicos, mas apresentou poucos detalhes sobre seus planos. No entanto,
dada a postura ideológica de que “menos Estado é melhor”, pode-se esperar cortes
severos semelhantes no Brasil. 

Sem dúvida, um dos primeiros alvos serão as universidades públicas brasileiras. 
Os ataques de Trump a Columbia, Harvard e outras universidades de renome mundial—
sob a alegação de que os administradores haviam falhado em conter o antissemitismo
nos campi — serviram de pretexto para forçar essas instituições a eliminar todos
os programas de diversidade, equidade e inclusão. Tais programas eram mecanismos
importantes para garantir que o ensino superior de qualidade fosse verdadeiramente
acessível a todos os segmentos sociais, e não apenas aos brancos de classe média.

Não há absolutamente nenhuma garantia de que um novo governo de extrema-direita 
em Brasília manteria os atuais programas de ação afirmativa, sob o argumento de 
que são discriminatórios, racistas e parte de uma conspiração de esquerda para controlar
as mentes dos estudantes universitários. Nenhum programa estará imune a tentativas
de desmantelamento. 

### **Alvo 6: Soberania**

A soberania brasileira também estará em jogo. Em todo o mundo, observadores que 
acompanham os Estados Unidos consideram muitas das declarações de Trump meras fantasias
delirantes de uma pessoa instável. Propor a anexação do Canadá e da Groenlândia,
ou mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América e do Lago Ontário para 
Lago América, parecem iniciativas nacionalistas absurdas para agradar à sua base.

No entanto, a ideia de Trump de invadir a Venezuela e a declaração de que organizações
criminosas brasileiras são grupos terroristas — que o governo dos EUA teria o direito
divino de destruir — refletem, na verdade, o desejo de consolidar a América Latina
e o Caribe como um quintal neocolonial dos Estados Unidos. Um acordo sobre terras
raras favorável aos EUA, mas com poucos benefícios para o Brasil, é claramente uma
das primeiras prioridades na agenda de um presidente brasileiro que se considera
100% alinhado ao atual governo norte-americano. 

## **Mais alvos: Itamaraty, direitos LGBTQIAPN+ e meio ambiente**

A lista é interminável: expurgos no Itamaraty, processos administrativos contra 
funcionários públicos, ataques aos direitos LGBT+, a continuidade das privatizações
de empresas estatais, o desmantelamento da proteção às terras indígenas e o fim 
da preservação ambiental. Com uma vitória eleitoral — por menor que seja —, Bolsonaro,
assim como Trump, declarará ter recebido um mandato popular para implementar seu
programa, ignorando a vontade da outra metade do país que não apoia seus planos 
para o futuro do Brasil. 

As pesquisas mais recentes nos Estados Unidos indicam que os Democratas conquistarão
o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, até do Senado, formando
uma frente para conter as piores intenções de Trump nos próximos dois anos. Enquanto
o Congresso dos EUA se inclina à esquerda em repúdio às políticas do atual presidente,
o Brasil pode enfrentar quatro anos piores que a gestão de Jair Bolsonaro. Embora
uma rejeição generalizada a um possível novo governo Bolsonaro possa surgir após
cerca de um ano de mandato, não há cenário plausível que preveja um freio semelhante
ao que a extrema-direita pretende impor nos próximos quatro anos, caso os apoiadores
de Lula não consigam reverter o resultado das urnas. 

O destino do país pode depender de algumas centenas de milhares de votos.
