# Ação humana com fogo e desmatamento afeta mais Amazônia do que a seca, diz estudo na Nature

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- Published: 2026-10-21T14:53:49-04:00
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Terra Indígena Paraná do Arauató, no Amazonas.
 Liam Cavalcante/Rede Amazônica 
As atividades humanas, como o desmatamento e as queimadas, são as principais responsáveis
pelas emissões de carbono na Amazônia brasileira. Elas pesam mais do que as mudanças
climáticas globais. É o que mostra um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas 
Espaciais (Inpe) publicado nesta quarta-feira (21) na revista Nature, que analisou
15 anos de medições aéreas de gás carbônico (CO₂) sobre a floresta. Uma floresta
saudável funciona como uma esponja de carbono: retira CO₂ do ar para crescer e ajuda
a frear o aquecimento global. Na Amazônia brasileira, essa conta passou a fechar
no negativo. Entre 2010 e 2024, a região lançou na atmosfera, em média, 1,17 bilhão
de toneladas de CO₂ por ano a mais do que absorveu. Mas, como uma floresta desse
porte pode emitir mais do que absorver? Foi essa pergunta que levou a pesquisadora
Luciana Gatti a pesquisa. Duas forças explicam essa virada. A primeira é a ação 
humana direta: o desmatamento elimina as árvores que capturariam carbono, e o fogo
devolve ao ar o carbono guardado na vegetação. A segunda é o clima: secas e calor
extremos fazem a floresta crescer menos e absorver menos. A pesquisa mediu o peso
de cada uma e concluiu que a ação humana domina. O clima extremo funciona como um
amplificador: piora um estrago que começa no chão da floresta. “Quem mais afeta 
a Amazônia, quem está matando a floresta, não é a mudança climática global, mas 
a ação humana. Precisamos estar atentos à mudança do clima, mas mais atentos ainda
com as políticas públicas que podem proteger a nossa floresta e, consequentemente,
o nosso clima”, afirma Luciana. Os principais resultados do estudo são: O fogo é
a maior fonte de carbono da floresta. As queimadas emitiram, em média, 1,47 bilhão
de toneladas de CO₂ por ano, mais do que o saldo total da região. A floresta em 
pé não conseguiu compensar. Sem seca, o desmatamento sozinho multiplicou as emissões.
Entre 2019 e 2022, com chuva e temperatura próximas do normal, o desmatamento quase
dobrou e as emissões ficaram cerca de quatro vezes maiores que nos anos chuvosos.
Mesmo nas secas extremas, a principal causa é humana. Nos anos de El Niño ou de 
Atlântico aquecido, a área queimada foi 92% maior. O estudo analisou a área para
entender se o fogo poderia ter sido causado naturalmente, como por raios, mas os
dados mostram que 98% desse fogo está associado à ação humana. 8 em cada 10 focos
de fogo no Amazonas estão em imóveis rurais, mostram dados do Inpe E a consequência
da ação humana é a alteração não só da capacidade da floresta de ser o sumidouro
de carbono da humanidade, mas do clima que há nela e que afeta todo o país. É a 
umidade da Amazônia que é transportada ao resto do país para levar chuvas e arrefecer
o calor acumulado com a alta das temperaturas, por exemplo. Porém, o desmatamento
já alterou o clima da própria Amazônia. Em 46 anos, a chuva anual caiu 8% na região,
e 20% no auge da estação seca. Enquanto isso, a floresta também ficou mais quente:
a temperatura média subiu 1,13 °C. Este é o quarto artigo de Luciana como autora
principal na Nature, o que faz dela a primeira cientista brasileira a alcançar essa
marca na revista. Pesquisadora titular do Inpe, ela estuda há quase 40 anos o papel
da floresta no ciclo global do carbono. Queimadas no Amazonas Divulgação/Ibama Os
danos à floresta A análise estatística dividiu os 15 anos em três grupos, cada um
marcado por um fator dominante. A comparação entre eles permitiu separar o efeito
do clima do efeito do desmatamento e do fogo: Anos chuvosos (2011 a 2014, 2017 e
2018): a chuva foi o que definiu o grupo, e as emissões foram as mais baixas da 
série. Ainda assim, o desmatamento médio foi de 6.389 km², e 55 mil km² de vegetação
queimaram por ano. Anos de desmatamento alto (2019 a 2022): o desmatamento chegou
a 12.580 km² por ano e a área queimada cresceu 25%. As emissões chegaram a 1,58 
bilhão de toneladas de CO₂ por ano. Anos de seca extrema (2010, 2015, 2016, 2023
e 2024): sob influência do El Niño, do Atlântico aquecido ou dos dois, a área queimada
passou de 105 mil km². As emissões atingiram 1,80 bilhão de toneladas de CO₂ por
ano, o maior valor da série. O segundo grupo funciona quase como um experimento 
natural. O clima ficou próximo ao dos anos favoráveis e o resultado deveria ter 
sido de redução das emissões. Isso não aconteceu porque no período houve um recorde
no desmatamento, com a falta de fiscalização durante a política ambiental do ex-
presidente Jair Bolsonaro. No terceiro grupo, o movimento foi o inverso. Em 2023
e 2024, já no governo Lula, a fiscalização foi retomada e o desmatamento caiu. Mesmo
assim, as emissões desse grupo subiram. O que aconteceu naqueles anos, segundo Gatti,
foi a soma da mudança climática e da ação humana, juntas, sob a floresta. Naquele
período, pior seca que a região norte enfrentou nos últimos anos, a área queimada
foi 92% maior que nos anos chuvosos, e quase todo esse fogo, segundo o estudo, foi
provocado por pessoas. “Hoje, a queimada representa um risco de perda da floresta
maior que o desmatamento. É preciso impedir às chamas, uma política ainda mais dura,
uma ação local com estados e em conjunto para impedir a ação humana na floresta.
Não é a Amazônia que não absorve mais, é a população na Amazônia que está fazendo
isso com ela. Aeronave do Ibama lança água sobre área de incêndio no Amazonas Reprodução/
Ibama O fogo virou a principal ameaça Nos anos de seca extrema, a emissão causada
pelo fogo superou o saldo total da floresta. Em outras palavras, a vegetação ainda
absorveu parte do carbono liberado pelas chamas. Sem as queimadas, mesmo os anos
mais secos teriam um balanço bem menos negativo. Para a pesquisadora, os dados indicam
uma mudança de estratégia de quem destrói a floresta. Os anos com mais fogo, diz
ela, coincidem com períodos de fiscalização mais rígida contra o desmatamento. “
O fogo é o novo desmatamento”, resume. A pesquisa revela um diagnóstico do que está
ocorrendo no Amazonas. Uma análise do Inpe, feita a pedido do g1, mostrou que a 
maior parte dos incêndios está em propriedades rurais com CAR. Ou seja, são em áreas
privadas e, segundo o Ibama, corrobora com as investigações que vem apontando que
as ações são humanas e criminosas. Entre 1º e 15 de outubro, o satélite de referência
do Inpe registrou 1.639 focos no estado. Desses, 79,1% ficaram em propriedades privadas
cadastradas. Para você entender melhor: para que uma propriedade possa usar o fogo
para o manejo do solo, como limpeza de pastagem, por exemplo, é preciso autorização
caso a caso do governo estadual – o que não há. Além disso, desde 9 de setembro,
quando as chamas começaram a sufocar a região, o governo estadual proibiu o fogo
no estado. Ainda assim, os incêndios continuaram. O presidente do Ibama, Jair Schmitt,
explica que o fogo pode ocorrer com a seca, mas a ação no Amazonas é humana e é 
justamente dessa configuração que aqueles que cometem crimes vêm se aproveitando.“
Como tem muito incêndio, as pessoas vão colocando fogo, ampliando o problema até
pela dificuldade que se pode ter em um momento de crise como esse de identificar
o crime. (…) e há uma hipótese considerada de que elas se valem do momento político
para tensionar o caos”, explica Schmitt.
