# ‘Judicialização freestyle’ de Kassio mira Exército do Lula e ajuda Flávio, diz professor

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- Published: 2026-10-24T01:48:44-04:00
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A dois dias do segundo turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atuou para impedir
que fosse derrubado o principal canal de comunicação da campanha digital de reeleição
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — o Exército do Lula. O ministro Floriano
de Azevedo Marques ordenou nesta sexta-feira, 23 de outubro, que Kassio Nunes Marques,
que comanda a Corte, se abstenha de suspender por via administrativa o canal de 
WhatsApp, criado e administrado pelo deputado federal André Janones (Rede).

Floriano escreveu que a presidência do TSE não tem competência para tirar do ar 
canais de pessoas físicas e viu o risco de abuso de poder. A resposta veio após 
um pedido do presidente da Corte, na última quinta-feira, 22 de outubro, para que
a Meta – dona do Instagram, Facebook e WhatsApp –, o Google e o X (antigo Twitter)
entregassem um relatório sobre a atuação do canal Exército do Lula, que reúne quase
10 milhões de pessoas. O prazo vence no início da noite desta sexta-feira, 23 de
outubro. 

A decisão de Nunes Marques foi avaliada como “desastrosa” pelo professor Afonso 
Albuquerque, do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF).“[
O TSE] atribui a uma empresa privada estrangeira o poder de produzir diagnóstico
capaz de orientar a vida pública no Brasil”, criticou. 

Professor Afonso Albuquerque, do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal
Fluminense (UFF)

O docente também descreveu como “judicialização freestyle” a forma como o principal
órgão eleitoral do país tem atuado, por estabelecer um desequilíbrio na forma como
analisa os movimentos das duas campanhas eleitorais e por favorecer a campanha de
Flávio Bolsonaro (PL). 

O canal de Janones entrou na mira de Nunes Marques após o fim do primeiro turno,
depois que a campanha do candidato Flávio pediu a suspensão do grupo por suposta
disseminação de desinformação – fato que não foi constatado por peritos do próprio
TSE. A equipe do candidato do PL também foi responsável pelo pedido ao ministro 
para que as plataformas fornecessem um relatório completo sobre a atuação do Exército
do Lula, que estaria promovendo ações coordenadas. 

Às 10h12 desta sexta-feira, 23 de outubro, Janones avisou aos seguidores do canal
de que eles estavam prestes a perder o lugar que os reunia. No Exército do Lula,
o parlamentar mineiro disse que a página “deverá sair do ar ainda hoje” e que seria
perto do horário do último debate entre presidenciáveis, que será realizado nesta
noite na TV Globo, e que o pedido teria vindo do TSE. 

Com o anúncio de uma suposta restrição, os integrantes do grupo começaram a se mobilizar
nas redes sociais, por conta própria, e disparar hashtags que apontavam para uma
possível censura administrada por Nunes Marques. 

Uma minuta de resolução – que proibiria canais com mais de 200 mil seguidores nas
48 horas anteriores à votação – chegou a circular entre os ministros, mas foi abandonada
por falta de maioria. 

A reportagem procurou o TSE que “não determinou a retirada de nenhum canal de WhatsApp
do ar. Os prazos dos processos de propaganda são sempre curtos. Ilações a partir
desses despachos que pedem informação em tempo curto são absolutamente indevidos.”

A nota acrescentou ainda que “na manhã de hoje, os ministros da propaganda do TSE
se reuniram  com as plataformas Meta, X, Google, TikTok e Kwai. Em pauta, as providências
para o atendimento da legislação eleitoral. O ministro Kassio Nunes Marques, pediu
reforço de pessoal e atuação isonômica por parte das plataformas a fim de garantir
o cumprimento do plano de conformidade assinado por todas as empresas.”

A **Agência Pública** entrevistou o professor Afonso Albuquerque, leia as principais
respostas aqui.

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**Como você avalia a decisão do ministro Nunes Marques em pedir um relatório para
a Meta sobre o Exército do Lula e uma possível derrubada do canal ainda hoje?**

Eu avalio como desastrosa. Porque atribui a uma empresa privada estrangeira o poder
de produzir diagnóstico capaz de orientar a vida pública no Brasil. Isso é não apenas
privatização da Justiça, porque você atribui poder público a um agente privado, 
mas também um ataque à soberania nacional, porque você atribui a um agente estrangeiro
a capacidade de formar decisões que impactam na vida política brasileira, num momento
extremamente delicado. 

**A campanha de Flávio Bolsonaro acusa o Exército do Lula de coordenar ações nas
redes, distribuindo “missões” de compartilhamento aos seus seguidores. Existe alguma
regra que limite a forma como grupos da sociedade civil se organizam para fazer 
campanha? **

Para responder a essa questão, eu vou fazer referência à campanha do Pablo Marçal[
quando concorreu à Prefeitura de São Paulo, em 2024]. A campanha dele estabelecia
missões e premiava as pessoas que conseguiam ter o melhor desempenho em relação 
às missões.

Extraído o elemento financeiro, acusar alguém de fazer missões durante a campanha
eleitoral, é acusar alguém de participar da campanha eleitoral. 

O que acontece é que no partido PL, muitos dos seus candidatos eleitos são influencers
que aprenderam a usar um estilo de campanha que depende de apoio de plataformas 
e robôs, se queixando de uma organização que pratica campanha à moda antiga, adaptando
a moda antiga ao novo meio. 

Então, isso é rigorosamente surreal. É o _fake_ acusando o verdadeiro de fazer coisas
verdadeiras. Não é apenas acusação sobre algo que é legal. É uma acusação sobre 
algo que é o que deveria ser feito numa campanha de verdade, por todos os envolvidos,
inclusive na campanha do PL do Flávio Bolsonaro. 

Isso sugere que a campanha do PL não tem militância organizada, não tem a habilidade
de construir militância organizada, sem que seja estruturada a partir de uma lógica
externa de financiamento e apoio de plataforma. Isso oferecia um elemento financeiro
e monetário ao que de outra forma seriam ações de base.

**O ministro Nunes Marques solicitou à Meta, Google e X esclarecimentos sobre a 
eventual amplificação coordenada de conteúdos e hashtags relacionados à campanha
eleitoral – que é exatamente como o grupo tem se articulado nas redes. Como você
avalia, professor? **

É “judicialização do freestyle”, porque entra aquele desequilíbrio que a gente acompanha
em todas as campanhas, em que existe uma regra para o PT e não existe essa regra
para quem esteja se opondo ao PT. Então, você tem essa tradição estabelecida no 
Brasil desde o Mensalão, passando pela Lava Jato, de criminalização de um partido
político. Essa lógica entrou na política brasileira e não saiu mais.

Existe aí um movimento judicial no sentido de criar condições para favorecer o candidato
Flávio Bolsonaro. É isso desenhado, explícito, pulando na frente desse movimento.

**Existe alguma base legal para uma possível derrubada do canal, baseado nos apontamentos
feitos por Nunes Marques às Big Techs, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro?**

Nenhuma, por isso que eu falei que é judicialização _freestyle_, porque é impedir
o direito e é uma regra que só se aplica para um lado. 

**O impulsionamento, por exemplo, feito por campanhas tem que ser declarado, mas
nesse caso – que é uma coordenação orgânica em que as pessoas entram livremente 
nos grupos –, existe alguma determinação do TSE que diz que isso não pode acontecer?**

A organização coletiva de cidadãos em torno de agendas políticas é o coração da 
democracia. Não é ilegal ou contrária a nenhum princípio político, mas sim o princípio
de organização [social] previsto na Constituição. É o que leva as organizações coletivas
de defesa do direito individual.

Então não existe nada de ilegal na organização de indivíduos. A legislação, e esse
é o ponto, ela se preocupa historicamente com a interferência do poder financeiro,
porque é a democracia, não a aristocracia ou cleptocracia. 

É o uso da legislação como instrumento de poder político. E eu acho que é isso que
o ministro Kassio está fazendo. Não vejo nenhuma razão jurídica que poderia justificar
esse seu posicionamento. 
