# Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

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- Published: 2026-10-25T02:26:45-04:00
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Na manhã de 13 de outubro, um grupo de moradores da Terra Indígena Votouro, no Rio
Grande do Sul, foi até a casa do cacique Darci Borges, do povo Kaingang. Eles procuravam
entender por que cinco trabalhadores da aldeia haviam sido demitidos um dia depois
do primeiro turno das eleições. O encontro terminou em briga, e o indígena Álvaro
Ferreira, frentista em um posto de gasolina de Faxinalzinho, município vizinho à
TI, foi morto. 

Rosa Kaingang*, que estava presente, diz ter visto o cacique – apoiador de Flávio
Bolsonaro – atirar contra Ferreira. “Eu sou prova viva disso e nunca mais vou esquecer
essa cena horrível.” Segundo vídeo enviado por moradores, a polícia da Brigada Militar
estava presente no momento dos disparos.

Foi a primeira de três mortes naquele dia. As outras duas, também de indígenas, 
ocorreram horas depois, durante ação do Batalhão de Choque da Brigada Militar, chamado
à TI após o primeiro crime. Segundo os indígenas, os militares desceram atirando–
e mataram duas pessoas da comunidade. Já a corporação alegou à Rádio Gaúcha ter 
sido recebida a tiros no território indígena e atribuiu a violência a uma disputa
interna pela liderança da comunidade. 

Entretanto, para os quatro indígenas ouvidos pela **Agência Pública**, a disputa
tem outro nome: perseguição política. Eles relatam que o cacique Darci Borges, bolsonarista
declarado, pune há anos os moradores que votam em candidatos do PT, e que a pressão
aumenta a cada eleição. “Quem apoia a esquerda perde o emprego na aldeia”, explica
Rosa*.

_Vídeo enviado por moradores da Terra Indígena Votouro mostra momento do confronto
entre o cacique Darci Borges, o “cacique bolsonarista”, e lideranças apoiadoras 
do PT_

A Polícia Federal informou que a investigação das mortes é conduzida pela unidade
de Passo Fundo e que não divulga informações sobre inquéritos em andamento. O Ministério
Público Federal abriu um procedimento de mediação e pediu reforço do policiamento
no segundo turno. Sobre a apuração criminal, disse ainda não ter retorno.

A Brigada Militar, a Secretaria da Segurança Pública do estado e a Polícia Civil
não responderam até a publicação deste texto. O espaço segue aberto. O cacique Darci
Borges foi procurado por telefone e se recusou a dar entrevista.

O conflito na TI Votouro não é um caso isolado da tensão política que vem se instaurando
nos territórios indígenas durante a eleição. Em Roraima, lideranças Yanomami ouvidas
pela **Pública** relatam que garimpeiros têm telefonado para jovens da etnia avisando
que vão “voltar com tudo” ao território se Flávio Bolsonaro for eleito. A maior 
terra indígena do país foi devastada, durante o governo Bolsonaro, pelo garimpo 
ilegal, que levou violência, estupro, fome e problemas de saúde aos Yanomami (_leia
mais abaixo_). 

No Pará, áudios revelados pela Folha mostram fazendeiros marcando a invasão da Terra
Indígena Apyterewa para 25 de outubro, dia do segundo turno entre Lula (PT) e Flávio
Bolsonaro (PL). 

Para a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lucia Alberta
Baré, as ameaças têm relação direta com a campanha. “As pessoas falam claramente,
isso não é nem segredo: se o candidato X ganhar, no dia seguinte nós vamos entrar
na terra indígena.” A própria Funai virou alvo. Quatro dias depois do primeiro turno,
em 8 de outubro, a unidade do órgão na Terra Indígena São Jerônimo, no Paraná, foi
atacada com artefatos explosivos.

A presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, diz que as ameaças têm relação direta
com a campanha

Os relatos se somam a um período pré-eleitoral que foi o mais violento da década.
As organizações Terra de Direitos e Justiça Global contaram 354 casos de violência
política no país entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, um a cada 44
horas. Só na campanha deste ano, até o primeiro turno, foram mais 134, um a cada
nove horas.

## **TI Votouro: ‘Ou ele te manda embora ou ele te mata’**

A Terra Indígena Votouro, onde vivem famílias Kaingang e Guarani, fica entre Benjamin
Constant do Sul e Faxinalzinho, no norte do Rio Grande do Sul. Segundo moradores
ouvidos pela reportagem, o cacique Darci Borges, no cargo há cerca de sete anos,
faz campanha aberta para candidatos bolsonaristas desde 2018. “Campanha e ameaça
ele sempre fez, mas neste ano ele foi ainda mais violento”, relata Rosa* Kaingang.

A tensão política se acirrou na véspera do primeiro turno, quando uma carreata de
apoiadores de Lula dentro da TI foi apedrejada por pessoas ligadas ao cacique, segundo
relatos dos indígenas ouvidos. O grupo registrou boletim de ocorrência na Polícia
Civil de São Valentim.

O santinho que o grupo ligado a Darci Borges distribuía, enviado à reportagem pelos
moradores entrevistados, pedia votos não apenas para Flávio Bolsonaro e o governador
eleito Luciano Zucco, mas também para os candidatos ao Senado Sanderson (PL) e Marcel
van Hattem (Novo), para o candidato a deputado federal Maurício Dziedricki (Podemos)
e para o deputado estadual Ronaldo Santini (Podemos).

Foto de uma colinha que teria sido distribuída pelo cacique Darci Borges e seus 
apoiadores, na TI Votouro (RS)

No dia seguinte à eleição, segunda-feira, 5 de outubro, cinco trabalhadores indígenas
que tinham participado da carreata petista foram dispensados de seus cargos na aldeia.
A um deles, segundo Rosa*, o cacique teria dito: “Vai pedir dinheiro pro teu deputado
agora”. Para ela, a regra na TI é clara: “Se tu mora na reserva, tu tem que apoiar
o lado dele. Se tu não fizer o que ele diz, ou ele te manda embora ou ele te mata,
como matou o Álvaro. Ele era um companheiro de militância muito querido”, lamenta.“
Estava junto com nós no dia da carreata. Ele tava uma felicidade que só, sabe?”

Marta* Kaingang, outra moradora ouvida pela reportagem, diz que a prática é antiga.
Depois da eleição municipal de 2024, segundo ela, pessoas de famílias que declararam
voto em um vereador indígena do PT também perderam cargos na creche e na escola 
da aldeia. “Ele ficava na rua o dia inteiro, com um carro de som, tocando a música
do Flávio Bolsonaro e ameaçando quem não votasse nos candidatos dele”, conta. 

Além da pressão política, Marta* relatou ameaças de expulsão e incêndio de casas.“
Tu dorme com medo, acorda com medo. Tu não sabe se vai acordar e não vão estar cercando
tua casa”, diz. “E se ele [o cacique] mata meu filho porque ele não quis apoiar 
o candidato dele?”

Um áudio enviado à reportagem pelos moradores de Votouro, que dizem ter sido gravado
pelo cacique, mostra o tom das ameaças. Na gravação, uma voz masculina se dirige
a uma funcionária da prefeitura de Benjamin Constant do Sul: “Tu tá exigindo demais.
Eu posso pedir o desligamento total de você. Então, tu quer continuar trabalhando,
aí fica bem quietinha no teu canto, tá? (…) E você sabe que eu posso fazer isso”.

### **O fatídico dia 13**

Na manhã de 13 de outubro, dia em que o grupo foi à casa do cacique perguntar o 
motivo das demissões, não houve tempo para diálogo. De acordo com relatos dos indígenas
ouvidos pela **Pública**, o cacique teria dado um tapa em Álvaro Ferreira, que revidou
com um soco, e a briga foi escalando. “Ele entrou para dentro de casa, simplesmente
pegou a arma de fogo e atirou contra ele”, afirma Rosa* Kaingang. 

Ainda segundo os moradores, o 3º Batalhão de Polícia de Choque da Brigada Militar
chegou 3 horas mais tarde. Rosa* conta que os policiais “soltaram drones e desceram
atirando”. “A polícia alegou confronto, mas não teve confronto nenhum”, explica.
Dois homens morreram em decorrência do tiroteio, identificados pelos moradores da
TI como Alexandro e Silvano, mas as autoridades não divulgaram a identidade das 
vítimas. Outras 15 pessoas ficaram feridas, e a Polícia Federal investiga o caso.
A identidade das vítimas ou de onde partiram os tiros ainda não foi divulgada. 

_Moradores  da TI Votouro relatam terem sido atacados com pedras, pedaços de pau
e jatos spray de pimenta durante confronto com a polícia_

“Até quando nós vamos viver assim? Se esse cacique continuar, ele vai matar mais
quantas pessoas?”, pergunta Rosa*.

Questionada, a presidenta da Funai criticou a atuação policial. “A polícia tem que
agir com humanidade. Não pode chegar atirando em todo mundo”, afirma. “Esse não 
é o primeiro nem será o último caso, infelizmente.” A Funai diz ter acionado a Força
Nacional de Segurança Pública para atuar na TI. 

## **TI Yanomami: ‘estão dizendo que o filho do Bolsonaro ganhou’**

Waihiri Hekurari Yanomami diz que o tráfico de aeronaves na TI voltou a aumentar
após o 1º turno

Cerca de uma semana depois do primeiro turno, quatro jovens Yanomami relatam ter
recebido ligações de garimpeiros dizendo que eles “estavam voltando” ao território,
em Roraima. Em troca de dinheiro, pediam que os jovens limpassem pistas de pouso
abandonadas na floresta, usadas por aviões e helicópteros do garimpo.

Estão dizendo que o filho do Bolsonaro ganhou, que já é presidente. Por isso eles
estão invadindo nosso território novamente”

 Waihiri Hekurari Yanomami

Presidente da Urihi Associação Yanomami

A liderança falou com os quatro jovens, mas, por segurança, preferiu não revelar
suas identidades nem a região onde vivem.

As ligações foram destinadas a indígenas de regiões onde a floresta já voltou a 
ser derrubada. Um relatório preliminar de monitoramento da associação obtido pela**
Pública** registra novos desmatamentos em duas áreas que estiveram no centro da 
última invasão. A primeira fica em Xitei. Ali, perto da Pista da Pupunha, pista 
clandestina do garimpo, a plataforma de monitoramento por satélite Guardião emitiu
14 alertas de desmatamento entre abril e 20 de outubro, somando cerca de 5 hectares.

Área perto da Pista da Pupunha, em Xitei, na Terra Indígena Yanomami, em 2 de agosto
e em 16 de outubro de 2026. Os polígonos marcam alertas de desmatamento

A segunda área fica entre Homoxi e Maraxiu, no entorno de Surucucu. Homoxi foi uma
das regiões mais devastadas na última invasão. Ali, foram três alertas entre agosto
e setembro, cerca de 1,8 hectare.

Área entre Homoxi e Maraxiu, perto de Surucucu, em 2 de março e em 28 de setembro
de 2026

Waihiri afirma que o tráfego de aeronaves voltou a aumentar desde o primeiro turno.
A associação avisou a Casa de Governo, estrutura do governo federal que coordena
a resposta à emergência Yanomami em Boa Vista, e vai enviar o relatório completo
às autoridades.

Entre 2019 e 2022, estima-se que existiam cerca de 20 mil garimpeiros ilegais dentro
do território indígena. Eles levaram violência, estupro, contaminação de rios e 
mortes aos Yanomami. Durante o governo de Bolsonaro, 570 crianças yanomami morreram
por causas evitáveis, conforme revelou Sumaúma à época. Os garimpeiros foram expulsos
pelo governo Lula em 2023. 

Mas as ameaças da volta do garimpo não se restringem aos Yanomami. Em 9 de outubro,
a Aliança em Defesa dos Territórios, que reúne os povos Kayapó, Yanomami e Munduruku,
divulgou uma carta relatando ameaças de garimpeiros em Roraima, no Pará e em Mato
Grosso logo depois do primeiro turno. Waihiri ajudou a escrever o texto.

Nas redes sociais, garimpeiros fazem campanha aberta. Desde que Flávio Bolsonaro
saiu na frente no primeiro turno, diz Waihiri, os garimpeiros “se sentiram com confiança
e autoridade”. Em um vídeo publicado no TikTok sob a legenda “A nação garimpeira
é Flávio Bolsonaro”, uma mulher grava de uma área de mata: “O tempo em que a gente
conseguiu trabalhar melhor no garimpo foi no tempo em que o Bolsonaro foi presidente”.

Em Roraima, o garimpo esteve no centro da campanha eleitoral no primeiro turno. 
Durante um comício na capital Boa Vista, Flávio Bolsonaro prometeu: “Vocês vão ter
segurança jurídica, vão poder plantar, vão poder criar gado, vão poder fazer mineração
com responsabilidade, porque é um governo que vai respeitar o garimpeiro legal”.

Aliado de Flávio, o governador eleito de Roraima, Arthur Henrique (PL), que venceu
no primeiro turno com cerca de 69% dos votos válidos, usou a defesa da mineração
em terras indígenas como uma de suas principais bandeiras. A presidenta da Funai,
Lucia Alberta Baré, lembra que a decisão não cabe ao governo estadual. “Ele só esqueceu
que as terras indígenas não são de responsabilidade do estado de Roraima. Mas esse
discurso é muito delicado durante o processo eleitoral, porque cria essa situação
de insegurança para os indígenas e para os nossos servidores.”

## **‘Com Lula a gente podia dialogar, com Flávio não’**

Alessandra Korap Munduruku conhece há anos o preço de enfrentar o garimpo no Tapajós.
Ao longo da militância, recebeu ameaças de morte e teve a casa invadida e revirada.
Neste ano, levou a disputa para as urnas: concorreu pela primeira vez a uma vaga
na Câmara dos Deputados, pelo PT do Pará, e ficou como suplente, com 29.624 votos.

“Não esqueceremos jamais” dos estragos que Bolsonaro fez na Amazônia, diz Alessandra
Korap Munduruku

Durante a campanha seu perfil no Instagram virou alvo de insultos, ataques e ameaças,
a maioria em nome de Flávio Bolsonaro e do garimpo. “Deixa Flávio ganhar, até tu
vai pro inferno”, escreveu um usuário. “Garimpeiro é trabalhador, não bandido, então
vai te f[*]”, comentou outro.

O que preocupa Korap agora está fora das redes sociais. “A gente, que já viveu esse
terror de 2019 a 2022, sabe o que é o garimpo”, diz. “A gente sabe que eles vão 
voltar tudinho se o Flávio ganhar.” Para a liderança, a disputa já não se resume
a “esquerda ou direita”. “Agora, temos que enfrentar o bolsonarismo. Os bolsonaristas
estão cheios de raiva, espumando. Eles têm armas, e são violentos.”

Comentários recebidos nas postagens de Alessandra Korap Munduruku durante sua campanha
eleitoral

Para Korap, a questão indígena ficou à margem da campanha nacional deste ano, e 
foi justamente no intuito de romper esse silêncio que a Aliança em Defesa dos Territórios,
da qual ela faz parte, escreveu a carta. “As mulheres estão com medo do cheiro da
bala, dos venenos nos nossos rios, das armas dos garimpeiros. A gente precisava 
escrever essa carta pra alertar o mundo todo. A população brasileira pode até ter
esquecido dos estragos que Bolsonaro fez na Amazônia e do que seu filho pode fazer,
mas nós não esqueceremos jamais.”

### **Na TI Apyterewa, invasões marcadas para o dia do segundo turno**

No Pará, o governador eleito, Dr. Daniel (Podemos), que venceu no primeiro turno
com apoio de Flávio Bolsonaro e tem como vice a garimpeira Ellayne D’Almeida (PL),
aparece também nos áudios revelados pela Folha de S.Paulo em 12 de outubro. Em oito
mensagens de WhatsApp enviadas a indígenas Parakanã, moradores da região dizem que
fazendeiros esperam o dia 25 para invadir a Terra Indígena Apyterewa, em São Félix
do Xingu. 

A aposta, segundo os áudios, é que Flávio, se eleito, e Dr. Daniel entreguem o território
aos pecuaristas. O Comitê de Desintrusão do governo federal reforçou o efetivo na
região. Procurados, Dr. Daniel não quis comentar e a campanha de Flávio não respondeu.

Território de mais de mil indígenas Parakanã, povo de contato recente, a Apyterewa
foi a terra indígena mais desmatada do país durante o governo Bolsonaro. Entre julho
e setembro deste ano, período que coincide com o da pré-campanha e campanha eleitoral,
os focos de incêndio no território passaram de 41 para 1.007, segundo dados do Inpe
compilados pelo Programa Xingu.

A Funai, que integra o Comitê de Desintrusão, diz que as forças de segurança foram
enviadas à região, mas reconhece o limite. “Nós não temos como proteger as 700 terras
indígenas de uma vez. Então as ameaças vão continuar existindo”, lamenta Lucia Alberta
Baré.

Ameaças também chegaram a terras onde a desintrusão de fazendeiros já foi realizada
pelo governo federal. Nesta semana, servidores da Funai receberam de lideranças 
da TI Alto Rio Guamá, também no Pará, um vídeo que circula no TikTok em que um homem
com boné escrito “Flávio Bolsonaro 2026” grava em frente uma placa da Funai demarcando
a área como “terra protegida” e avisa: “Não acredite no discurso de um governo que
arrancou o povo de uma terra supostamente indígena. Esse povo, Lula, não vai esquecer
a forma desumana que vocês trataram eles. Agora, na urna, no próximo domingo, dia
25, vocês vão ter a resposta do povo paraense”.

Na Terra Yanomami, Waihiri Hekurari conta que, às vésperas do segundo turno, os 
mais velhos das aldeias têm feito pajelança todos os dias, apesar do receio do resultado
no dia 25. “Estamos todos com medo, mas nossos pajés estão conversando com a floresta,
conversando com o céu, para que nossa mensagem chegue para todos os brasileiros”,
conta.

Alessandra Munduruku, mesmo sem a vaga no Congresso Nacional, parece manter a esperança.“
Por mais que eu não tenha sido eleita, me sinto vitoriosa por furar essa bolha no
meu estado. Eu espero que, nesse segundo turno, as pessoas possam continuar a ouvir
minha voz, a voz do meu povo, a voz do rio, a voz da floresta. Independente das 
urnas, a luta dos povos indígenas continua”, conclui.
