# Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

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- Published: 2026-10-25T02:22:41-04:00
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Na sexta-feira, o irmão do candidato Flávio Bolsonaro (PL), Eduardo Bolsonaro, sugeriu
em uma entrevista nos EUA que pode haver fraude nas urnas e o irmão pode ter que
sair do país se perder. Embora pareça estar falando outra língua em relação à campanha
oficial, Eduardo está reforçando uma narrativa mentirosa que segue circulando entre
grupos de apoiadores do bolsonarismo. 

Um levantamento da **Agência Pública** identificou 418 publicações questionando 
a confiabilidade das urnas eletrônicas em uma rede de 60 canais do Telegram. Desses
canais, 58 compartilham mensagens de apoio a Flávio Bolsonaro. Embora o levantamento
tenha identificado publicações desde 2022, a maior parte dos registros (245) se 
concentrou entre maio e outubro de 2026. O maior volume de publicações (91) ocorreu
nas semanas anteriores e posteriores ao primeiro turno.

Em abril de 2017, a jornalista Mariana Godoy viajou até a Suíça para entrevistar
o ex-delegado da Polícia Federal (PF) e ex-deputado federal Protógenes Queiroz, 
que alegava estar em situação de asilo político em decorrência de uma condenação
no Supremo Tribunal Federal (STF). Em um trecho da entrevista, Queiroz afirmou que
houve fraude nas urnas durante as eleições de 2014, o que é uma mentira desbancada
inúmeras vezes por checadores de fatos, autoridades e o TSE. Ainda assim, dois trechos
desta entrevista voltaram a circular recentemente, em 32 publicações de 18 canais
do Telegram, que, juntos, somam quase 286 mil inscritos.

No primeiro turno das eleições, dez canais do Telegram compartilharam, entre 20h11
e 20h46, a seguinte mensagem: “INTRA TSE: Estranhamente às 19:16 as urnas modelos
UE2013 e UE2015 geram erro e a contagem ficou travada!”. Somados, esses canais têm
mais de 279 mil inscritos.

A alegação de que erros nas urnas eletrônicas teriam travado a contagem dos votos
já foi desmentida pela Justiça Eleitoral. Mesmo assim, o conteúdo continuou circulando
no Telegram. Um exemplo é o canal “Eleições 2026 Memes”, que reproduziu a mensagem
em 12 de outubro, seis dias depois da publicação do desmentido oficial. A antropóloga
e pesquisadora Letícia Cesarino explica que o Telegram é uma plataforma avessa à
regulação e que não tem uma tradição de moderação de conteúdo. “Esse plano de conformidade,
na verdade, não significa nada. Não tem força de lei. É mais uma declaração de compromisso.
Se a plataforma vai ser sancionada ou não, a Justiça Eleitoral não tem muitos meios
para forçar a se adequar à legislação eleitoral”, completa.

Print de um dos grupos no telegram que postou conteúdo falso que indicava erro nas
urnas eletrônicas

Em setembro de 2026, o Telegram apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 
um plano para combater a desinformação na plataforma. O item 2.1 das Medidas de 
conformidade, dedicado aos conteúdos político-eleitorais, estabelece que “A moderação
aplica-se a conteúdos, contas, grupos, bots e canais, por meio das seguintes medidas
de fiscalização: remoção de conteúdo, restrição ou remoção de contas e canais e 
aplicação de rótulos visíveis de advertência — os marcadores “SCAM” e “FAKE”, atribuídos
proativamente em vermelho para alertar a comunidade sobre riscos.”

Apesar das medidas previstas no documento, entre as 418 publicações identificadas
no levantamento, apenas uma apresentava um aviso indicando que o conteúdo poderia
ser falso. A postagem foi feita em 10 de outubro de 2024, no canal “FreedomNews ”.

Print da única publicação com indicação de que pode ser conteúdo não confiável

## **Por que se trata de uma rede?**

Das 418 publicações identificadas, 176 apresentam texto idêntico a pelo menos mais
uma postagem. Mas, ao examinar todos os conteúdos dos canais, 3.189.642 mensagens,
a **Pública** identificou 1.259 conexões entre os canais, estabelecidas por meio
de 249.464 encaminhamentos internos de mensagens na rede.

A análise das publicações que questionam as urnas eletrônicas identificou três eixos
discursivos principais: textos sobre possíveis falhas técnicas nos equipamentos,
questionamentos sobre interferência externa no processo eleitoral e memes.

Grafo de conexão elaborado a partir das conexões entre os canais

Número de publicações nos canais do Telegram por mês

O vídeo de Protógenes Queiroz, mencionado no início da reportagem, circulou acompanhado
de duas abordagens diferentes. Entre 2024 e abril de 2026, foram identificadas 14
publicações que começavam com as frases “Quem se lembra disso?” ou “Você se lembra
disso?”.

Após o início das investigações envolvendo Lulinha e Roberta Luchsinger, o vídeo
passou a circular com uma nova apresentação: “Esse aqui é o ex da Roberta Luchsinger,
amiga do Lulinha”. Apesar da mudança na abordagem, o restante do texto permaneceu
o mesmo. A narrativa apresentada nas publicações afirma que Protógenes Queiroz fugiu
do Brasil após receber ameaças de morte por ter investigado as urnas eletrônicas
e descoberto que o Partido dos Trabalhadores (PT) nunca venceu uma eleição de forma
legítima no país.

Cinco publicações no Telegram que compartilham o vídeo de Queiroz incluem, ao final
das legendas, links para duas postagens distintas na rede social X (antigo Twitter),
que também apresentam o mesmo vídeo. Em três delas, o link direciona para uma publicação
de 5 de agosto de 2025, feita pelo perfil “Miguel Diniz – Pátria amada Brasil”, 
que acumula mais de 574 mil visualizações. As outras duas direcionam para uma postagem
do perfil “Brasil Conservador ”, publicada em 23 de janeiro de 2026, também no X,
que ultrapassa 62 mil visualizações. 

Outro grupo de publicações compartilha um recorte de vídeo em que aparece uma pessoa
usando uma máscara alusiva ao personagem da HQ “V de Vingança”. O conteúdo circulou
em seis canais do Telegram: “ ANTVXXX”, “Brasil e o gás a 100 real”, “Direita FTB”,“
Mandaloriano Conspiracy”, “Pela Vida e Liberdade” e “Rasgando o Verbo”. Todas as
publicações foram feitas em 17 de fevereiro de 2026, acompanhadas do mesmo texto:

“Quem diria, as urnas foram fraudadas. Não se esqueçam da última eleição para presidente
em que uma mulher foi votar e já tinham votado no lugar dela. E em 2018, várias 
urnas davam pane ao apertar o botão do então candidato Bolsonaro. Em outras palavras,
as eleições são fraudadas a muito tempo e na última não foi diferente.”

A análise dos encaminhamentos indica que, dentro da rede de canais, o recorte do
vídeo foi publicado inicialmente em “Rasgando o Verbo” e “Mandaloriano Conspiracy”.
Posteriormente, o conteúdo foi encaminhado para os outros quatro canais: “ ANTVXXX”,“
Brasil e o gás a 100 real”, “Direita FTB” e “Pela Vida e Liberdade”.

Print da comparação dos posts entre os dois canais diferentes

Ao todo, foram identificadas 176 publicações com textos idênticos aos de pelo menos
outra postagem, distribuídas em 53 grupos de conteúdos repetidos. Essas publicações
formam 274 pares, o que indica que parte do conteúdo compartilhado pelos canais 
pode ter uma origem comum.

Cada par representa duas publicações com o mesmo texto. Assim, quando três postagens
apresentam conteúdo idêntico, são formados três pares de comparação; quando quatro
publicações compartilham o mesmo texto, são formados seis pares. Isso ocorre porque
uma mesma publicação pode integrar diferentes pares.

Os 274 pares identificados no levantamento podem ser consultados abaixo:

## **Publicações duvidam do funcionamento das urnas eletrônicas**

Os canais rejeitam explicações técnicas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas,
antes mesmo de conhecerem o sistema utilizado. Durante a primeira edição da Semana
Nacional do Sistema Eletrônico de Votação, realizada entre 3 e 9 de agosto, as publicações
dos canais da rede se concentraram em contestar as demonstrações feitas pelos técnicos
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Uma das publicações replicadas pelos canais afirma que: “O hardware dessa bosta 
fabricada pela Positivo não influencia em absolutamente nada na falta de confiança
nesse lixo de processo baseado “confie no estado”. Poderiam usar gabinete de acrílico
com uns FANs RGB também, primeira urna gamer do mundo.”

A empresa brasileira de tecnologia Positivo não foi a única a ser alvo das críticas.
Em outras publicações, os canais da rede comparam o procedimento de montagem e desmontagem
das urnas eletrônicas, realizado pelos técnicos do TSE, ao de um Game Boy, videogame
portátil lançado pela Nintendo em 1989.

Ao longo dos 30 anos de utilização das urnas eletrônicas no sistema eleitoral brasileiro,
quatro empresas foram responsáveis pela fabricação dos equipamentos: Positivo Tecnologia,
Diebold, Unisys Brasil e Procomp Indústria Eletrônica.

## **Publicação que acusam o processo eleitoral de interferência externa**

Mesmo após a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, publicações na rede 
afirmaram que Júlio Valente da Costa Júnior, secretário de Tecnologia da Informação
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), seria “petista de carteirinha” e teria poderes
para manipular os softwares das urnas eletrônicas e editar o código-fonte. A nomeação
do secretário pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso,
que ocupou o cargo entre 2013 e 2025, também foi alvo de ataques. A publicação termina
depositando em Flávio Bolsonaro a esperança de eleições mais confiáveis.

O texto compartilhado pelos canais é o mesmo de uma publicação feita em 11 de outubro
no X (antigo Twitter) pelo músico e militante bolsonarista Roger Moreira. A postagem
também foi tema de um vídeo publicado em 12 de outubro no perfil da Revista Timeline,
no Instagram, do influenciador Allan dos Santos. A legenda do vídeo começa com a
frase: “Conheça Júlio Valente, o petista por trás da contagem de votos do TSE”. 
Tanto a publicação de Roger Moreira quanto o vídeo de Allan dos Santos não estão
mais disponíveis no Brasil por determinação do Tribunal Superior Eleitoral.

Print de publicação de Roger Moreira

As acusações contra os responsáveis pelo sistema eleitoral, no entanto, não seguem
uma linha coerente. Em duas publicações, feitas nos dias 7 e 9 de outubro, os canais
apontaram o coordenador de Logística do TSE como o responsável por uma suposta manipulação
das urnas eletrônicas. Nessa versão, Júlio Valente e Giuseppe Janino, ex-secretário
de Tecnologia da Informação do TSE e um dos criadores da urna eletrônica, seriam
apenas marionetes.

Uma das publicações, feita em 8 de outubro, termina com a seguinte afirmação: “O
corpo técnico do TSE responsável pela apuração dos votos das eleições deve todo 
ser impedido de trabalhar no 2⁰ turno. São incompetentes e suspeitos de manipular
os dados das urnas eletrônicas.”

O mesmo canal, porém, havia acusado Júlio Valente de ser petista no dia anterior,
utilizando exatamente o mesmo parágrafo final. Cesarino relembra que desde 2018,
mesmo com a vitória de Jair Bolsonaro, apoiadores alegaram manipulação nas urnas.“
O conteúdo desse tipo de conspiracionismo eleitoral vai variando ao longo dos anos.
Porém,  para eles o importante é manter um nível de desestabilização global, com
relação à possibilidade de estar contestando o resultado eleitoral”, afirma.

Para a antropóloga, a chance de Flávio Bolsonaro reconhecer uma eventual derrota
para Lula é mínima. “A gente tem que pensar que caso o Lula vire haverá mais um 
ciclo de enfrentamento. E um ecossistema como o Telegram tem um papel central. Desde
2021, o Telegram é um espaço onde essa sensibilidade do negacionismo eleitoral, 
da conspiração sobre as urnas é gestada”, completa.
