# Mudanças climáticas já causam aumento de doenças infecciosas no país

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- Published: 2026-10-25T16:33:34-04:00
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Desde a década de 1980, o Brasil registra surtos comprovados de dengue, mas só 
em 2007 o Rio Grande do Sul teve um caso que não tenha sido importado de outra parte
do país. A explicação é simples: como o mosquito _Aedes aegypti_, que transmite 
a doença, vive melhor em regiões quentes e úmidas, o clima funcionava como uma barreira
de proteção. 

Essa defesa natural ficou no passado. Em 2024, ano em que o Brasil registrou um 
número recorde de casos da doença, o Rio Grande do Sul teve quase 210 mil infecções
confirmadas e 281 mortes.

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Na Bahia, estado acostumado a temperaturas mais elevadas e com 3 milhões de habitantes
a mais, os casos confirmados foram cerca de 163 mil, com 188 óbitos. 

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que isso não ocorre apenas no
Rio Grande do Sul. **De 2006 a 2024, o número de microrregiões brasileiras com níveis
epidêmicos de dengue mais do que dobrou, de 110 para 292, extensão que representa
metade do país (54%)**.

As outras microrregiões (46%) apresentaram incidência de média a baixa, com risco
esporádico ou incerto.

A principal explicação para essa mudança está no clima. A pesquisa identificou que
a maior frequência de anomalias térmicas é o indicador climático que explica melhor
o aumento das taxas de incidência de dengue no longo prazo. O conceito se refere
ao registro de temperaturas muito diferentes das habituais em um local por determinado
período de tempo.

> “O que se observa é que o processo de expansão da área de transmissão da dengue
> parece ser irreversível. Uma vez introduzidos, o vírus e o vetor, é improvável
> que se retorne a um cenário de transmissão zero”, alertam os autores. 

De acordo com o infectologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de 
Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, **o espalhamento da dengue é uma das 
maiores provas de como as mudanças climáticas podem incidir sobre as doenças infecciosas**.

A doença tropical tem chegado não somente a regiões mais frias do Brasil, como a
países do Hemisfério Norte. Neste momento, a região continental dos Estados Unidos
vive o maior surto de dengue da sua história. Casos autóctones também foram registrados
neste ano na França e na Itália. 

Granato explica que todas as etapas da vida do mosquito transmissor da dengue são
afetadas pelo clima.

“Eles colocam ovos com uma casca muito resistente, que podem permanecer por anos
na natureza e se romper quando tem umidade e temperatura alta. E esses mosquitos
já podem nascer infectados, porque há a transmissão da fêmea para os ovos”.

![Mudanças climáticas já levam ao aumento de doenças infecciosas . Na foto Celso
Granato . Foto: Divulgação SBPC/ML](/sites/default/files/thumbnails/image/loading_v2.
gif "Divulgação SBPC/ML")

###### O infectologista Celso Granato . Foto: **Divulgação SBPC/ML**

A temperatura também altera o comportamento dos mosquitos já adultos. 

“Quando está muito calor, eles têm que bater a asinha mais rapidamente para conseguir
voar. Então, eles gastam mais energia e precisam picar mais para se alimentar e 
acabam transmitindo mais a doença também”.

## Febre do Oropouche

Mas a dengue não é a única doença afetada pelas mudanças climáticas. **A febre do
Oropouche, que circulava quase exclusivamente na Região Amazônica até 2023, causou
mais de 12 mil infecções no ano passado, em 23 estados e no Distrito Federal**. 

A relação com o clima ainda está sendo investigada, mas especialistas acreditam 
que mudanças nos padrões de temperatura e chuvas, em conjunto com a degradação ambiental,
tenham contribuído para a expansão da doença. 

Granato chama atenção ainda para surtos que podem ocorrer após eventos extremos,
como secas e enchentes, que têm se tornado mais frequentes com as mudanças climáticas.
O alerta aumenta com a previsão de que o Brasil seja afetado pelo fenômeno El Niño,
que favorece esses eventos.

 

![Brasília (DF) 02/02/2024 - O Ministério da Saúde define a febre do Oropouche como
doença causada por um arbovírus do gênero Orthobunyavirus, identificado pela primeira
vez no Brasil,  em 1960, a partir da amostra de sangue de um bicho-preguiça capturado
durante a construção da rodovia Belém-Brasília.
Foto: Sociedade Brasileira de medicina
tropical/Divulgação](/sites/default/files/thumbnails/image/loading_v2.gif "Sociedade
Brasileira de medicina tropical/Divulgação")

###### Mosquito causador da febre do Oropouche Foto: **Sociedade Brasileira de medicina tropical/Divulgação**

“No Rio Grande do Sul, após o desastre das chuvas, aumentou muitas vezes a frequência
de leptospirose”, exemplifica.

A doença é causada por uma bactéria transmitida principalmente pela urina de ratos,
que é espalhada durante enchentes. 

“A água da enxurrada também se mistura com o esgoto e pode contaminar a que as pessoas
vão beber ou lavar seus alimentos. Há um grande risco de se contaminar com bactérias
que causam problemas gastrointestinais e com vírus, como o da hepatite A”, complementa
o infectologista.

Já as secas representam um perigo diferente e pouco conhecido: “Quando a gente tem
incêndio, os animais que dependem da floresta migram para as casas das pessoas que
moram perto, principalmente pequenos mamíferos, que têm uma série de doenças que
podem passar para o ser humano”.

**O exemplo mais preocupante é o hantavírus. A cepa que circula no Brasil causa 
uma síndrome cardiopulmonar bastante grave. Desde 2016, 530 infecções foram confirmadas
no país, com 212 mortes, uma taxa de letalidade de 40%**. 

> “A gente tem vários exemplos anteriores, na Bolívia e no Paraguai, por exemplo.
> Quando ocorrem queimadas, os roedores infectados entram na casa das pessoas e 
> causam essa doença”, alerta Granado. 

## Fungos

Outra ameaça pouco conhecida é a das doenças fúngicas. Na última edição do Congresso
Brasileiro de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, a professora da Universidade
Federal do Espírito Santo Sarah Gonçalves Tavares alertou que **as mudanças climáticas
estão levando os fungos a se adaptarem e, com isso, alguns passam ser nocivos aos
humanos**. 

“A gente tem uma temperatura corporal média de 37 graus Celsius, e 95% dos fungos
que estão no ambiente não conseguem crescer nessa temperatura. Mas a temperatura
do meio-ambiente tem aumentado, e os fungos estão se adaptando a isso. Então, essa
barreira que a gente tem acaba sendo rompida”.

A professora explica que a mudança de temperatura é uma das “engrenagens” desse 
processo, assim como o aumento de raios ultravioleta e outras alterações ecológicas,
que se somam e propiciam a emergência de determinados fungos como patológicos. 

“A gente tem micro-organismos que estavam no meio-ambiente e não eram causadores
de doenças em seres humanos, mas eles foram se adaptando a vários tipos de estresse
ao longo do tempo e começaram a surgir, principalmente, em pacientes em tratamento
intensivo”.

 

![Mudanças climáticas já levam ao aumento de doenças infecciosas . Na foto a professora
da UFES Sarah Gonçalves Tavares . Foto: Sarah Tavares/ Arquivo Pessoal](/sites/default/
files/thumbnails/image/loading_v2.gif "Sarah Tavares/ Arquivo Pessoal")

###### A professora da UFES Sarah Gonçalves Tavares. Foto:  **Sarah Tavares/ Arquivo Pessoal**

O maior exemplo é a _Candida auris_, identificada pela primeira vez na década de
1990 em áreas alagadas de países asiáticos, depois em regiões rurais e, por fim,
em cidades. Ele apresenta duas características muito perigosas: consegue sobreviver
em altas temperaturas e resistir por muito tempo no meio ambiente. 

“Uma pessoa sadia dificilmente vai desenvolver uma infecção por esse tipo de fungo,
mas os pacientes imunodeprimidos são vulneráveis”, complementa Sarah. Por isso, 
os surtos de _Candida auris_ têm acontecido em unidades hospitalares, com letalidade
entre 40 e 60%”. 

![Mudanças climáticas já levam ao aumento de doenças infecciosas . Fungo do tipo
Aspergilus . Foto: Sarah Tavares/ Arquivo Pessoal](/sites/default/files/thumbnails/
image/loading_v2.gif "Sarah Tavares/ Arquivo Pessoal")

###### Fungo do tipo Aspergilus . Foto: **Sarah Tavares/ Arquivo Pessoal**

O primeiro registro de infecção pelo fungo no Brasil foi em 2020, na Bahia. De lá
para cá, foram 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde. Dos 146
pacientes colonizados, 56 morreram. Quando o fungo chegou a corrente sanguínea, 
provocando infecção generalizada, a letalidade chegou a 82%. 

Um exemplo mais recente é o _Trichophyton indotineae_, uma espécie de fungo que 
causa problemas de pele, identificada pela primeira vez em 2022.

“Ele já emergiu com resistência a antifúngicos, porque provavelmente estava exposto
a isso no meio ambiente, e o remédio acaba selecionando cepas isoladas que são resistentes”,
conta a professora da Ufes.

Fungos resistentes não respondem aos tratamentos tradicionais, logo, são muito mais
difíceis de serem combatidos. As mudanças climáticas também interferem indiretamente
nesse processo: eventos extremos aumentam a vulnerabilidade das plantações, o que
leva os agricultores a aplicarem mais fungicidas, acelerando a seleção de cepas 
resistentes. 

Alterações ambientais causadas pelo clima também podem contribuir para a dispersão
de fungos que normalmente existem em áreas delimitadas. Um exemplo é o _Aspergillus_,
que se desenvolve melhor em regiões quentes e úmidas, e tem avançado para outros
lugares, após mudanças nos padrões de temperatura e umidade, inclusive no Brasil.

 
