# O dia em que eu larguei o Direito (e quase morri)

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- Published: 2026-10-28T02:49:05-04:00
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Uma primeira respiração mais curta. A próxima também não passa aquela sensação 
de fôlego recuperado. Viro de lado na cama, a janela está aberta, a luz chega nos
meus olhos. Uma sensação de aperto estranha no peito, como se o ar não entrasse 
por completo. É sexta-feira, são três da tarde e garoa lá fora. Resolvi tirar um
cochilo rápido, na tentativa de compensar as noites curtas de sono. Olho o relógio,
ainda poderia dormir alguns minutos, mas não consigo retomar o cochilo. Insisto 
de olhos fechados, mas a cabeça já acende o alerta.
 Viro mais algumas vezes, de
um lado para o outro, até que resolvo sentar na ponta do colchão. O espelho à frente
me mostra o traje típico de um advogado em home office. Meias, samba-canção e camisa
social. Olho para o chão e me sinto tonto, como se estivesse desorientado. O meu
lado médico, formado por temporadas de séries hospitalares, já pensa: “Você está
tendo um AVC ou infarto. 31 anos, tão jovem.” Olho novamente para o espelho e sorrio
para checar a simetria do corpo. Tudo certo. Levanto as duas mãos para o alto. Tudo
certo. Tento me convencer de que os sintomas não passam de impressão. Fico de pé
e a tontura bate muito mais forte. Agora, o negócio é sério. Inicio um modo de sobrevivência:
ligo para o meu namorado da época e apenas digo para ele vir correndo, pois estou
morrendo. Desligo o celular, vou até a porta de casa e destranco a fechadura (para
que o resgate consiga entrar ao encontrar meu corpo desacordado). Na sequência, 
mando uma curta mensagem no grupo de WhatsApp do prédio: “Apartamento XX, estou 
passando mal… venham!” Etapas concluídas, é só aguardar para ver se a ajuda chega
a tempo. Deito no sofá e, enquanto aguardo o início da retrospectiva da minha vida,
só consigo pensar em uma coisa: “Eu vou morrer de estresse por causa da advocacia.
O medo de tomar a decisão de seguir apenas com o meu trabalho nas redes sociais,
e abrir mão de uma carreira estável que levei anos para construir, está me fazendo
levar uma vida dupla insustentável. A culpa é minha.” O pensamento é interrompido
pela primeira vizinha que aparece na sala sem entender nada. Não vou contar detalhes
de como meu antigo namorado chegou na sala, todo molhado do tombo que levou ao correr
na chuva, e se deparou com um círculo de senhoras ao meu lado, porque ainda não 
superei essa vergonha. Ele me fez ligar para o meu cardiologista, porque o Pedro
de 31 anos hipocondríaco já tem um, que ouviu meus sintomas e perguntou se eu tinha
um frasco de calmante em casa. Obedeci, coloquei três gotas na língua e em poucos
minutos agradeci às senhoras e as liberei para retornarem aos seus apartamentos.
Apesar de traumática — e dramática — a experiência trouxe uma consequência prática.
Na semana seguinte, criei coragem de conversar com os sócios e informar sobre a 
vontade de sair do escritório para seguir com minha segunda profissão. Eu tinha 
chegado no meu limite e meu corpo precisou me avisar. Até hoje não tive coragem 
de acessar o histórico do grupo do WhatsApp do prédio para ler as respostas ao meu
chamado de socorro. Às vezes, ter coragem de tomar decisões antes pode te poupar
de viver grandes constrangimentos (e incomodar os vizinhos).
