Candidatos importados ao Senado: entenda a tática para 2026
A corrida eleitoral de 2026 colocou em evidência um movimento estratégico nos bastidores de Brasília: o lançamento de figuras públicas conhecidas em âmbito nacional para concorrer ao Senado Federal fora de suas bases históricas. Com a disputa aberta para a renovação de duas cadeiras por estado, legendas têm apostado na transferência de domicílio de nomes de alta visibilidade como instrumento para fortalecer bancadas ideologicamente alinhadas.
O cenário inclui transferências de peso, como a de Hélio Lopes (PL), que deixou o Rio de Janeiro para disputar em Roraima, e Carlos Bolsonaro (PL), lançado em Santa Catarina após sete legislaturas como vereador carioca. O fenômeno também atinge outros campos políticos, como demonstram as movimentações das ex-ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), que miram vagas por São Paulo depois de consolidarem suas trajetórias no Acre e em Mato Grosso do Sul, respectivamente.
O que impulsiona a migração de candidaturas
Embora a prática não seja inédita — em 1990, o ex-presidente José Sarney trocou o Maranhão pelo Amapá, estado que representou por 24 anos —, o xadrez para 2026 responde ao papel estratégico assumido pelo Congresso. A legislação eleitoral em vigor não exige naturalidade no estado, estipulando apenas a comprovação de domicílio eleitoral seis meses antes da eleição, prazo que se encerrou em 4 de abril.
A prerrogativa exclusiva dos senadores para sabatinar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e analisar pedidos de impeachment elevou o valor de cada assento. Diante de regras de fidelidade partidária brandas na Casa, que autorizam a troca de sigla sem perda de mandato, as cúpulas partidárias têm priorizado nomes considerados irredutíveis.
“A manobra virou uma ferramenta do xadrez político em Brasília. Enquanto a legislação estiver desse jeito, essa é a forma que os partidos utilizaram para tentar ter mais ingerência [interferência] sobre a atuação dos senadores”, diz a cientista política Graziella Testa, Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) .
Ela complementa a lógica das direções: “A estratégia é pegar alguém em quem se tem uma confiança absoluta, ainda que não seja daquele Estado”, explicou Testa, doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).
Racha partidário e embate por verbas em Roraima
A importação de candidatos, contudo, costuma gerar tensões internas imediatas com lideranças regionais. Em Roraima, onde 13 postulantes concorrem a duas vagas, a entrada de Hélio Lopes causou turbulência no diretório do Partido Liberal. O plano inicial previa apenas a postulação do deputado federal Nicoletti (PL) ao Senado.
A articulação atendeu a um pedido de Jair Bolsonaro, aliado de longa data de Lopes. A cúpula regional só soube do fato após a formalização. “Descobrimos isso no momento em que a imprensa divulgou que o domicílio eleitoral dele estava aqui em Roraima”, afirmou Arthur Henrique (PL), presidente da sigla no estado e concorrente ao governo estadual.
O desgaste se estendeu à divisão financeira do Fundo Eleitoral. Do montante recebido pelo diretório, a campanha de Nicoletti ficou com R$ 3,1 milhões, enquanto Hélio Lopes recebeu R$ 500 mil. A distribuição dos recursos foi estabelecida por Nicoletti. Sobre o critério adotado, o dirigente estadual pontuou: “Como o Nicoletti é deputado federal, o Valdemar [Costa Neto, presidente nacional do partido] entregou para ele essa prerrogativa, mas foi aprovada no sistema por mim, com o apoio de toda a diretoria”, explicou.
A campanha de Hélio Lopes — que atua com o nome de registro Hélio Fernando Barbosa Lopes após decisão da juíza Joana Sarmento de Matos vedar o uso de “Bolsonaro” na urna para evitar confusão no eleitorado — busca fundos extras em Brasília enquanto concentra suas agendas na segurança de fronteira, no agronegócio e na infraestrutura energética.
O termômetro eleitoral e a conexão local
Levantamento da pesquisa Quaest apontou os reflexos das primeiras movimentações em Roraima: Teresa Surita (MDB) lidera com 22%, acompanhada por Nicoletti (PL), com 19%. Já Hélio Lopes figura em 7º lugar, somando 2% das intenções de voto, frente aos 5% registrados na medição anterior.
Especialistas ressaltam que transferir o domicílio eleitoral no papel não garante transferência automática de votos nas urnas. O diretor do instituto de pesquisa Quaest, Felipe Nunes, enfatiza que a população pondera o vínculo regional dos candidatos: “Para uma candidatura desse tipo, a capacidade de apresentar uma agenda concreta para Roraima tende a ser especialmente importante. A eleição para o Senado não é apenas uma disputa nacionalizada: o eleitor também está escolhendo quem vai representar o Estado em Brasília”, analisa o diretor da Quaest.
A dependência exclusiva de agendas ideológicas também acende alertas quanto à representatividade. Carlos Santiago, presidente da Comissão de Reforma Política e Combate à Corrupção Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Amazonas, avalia que distanciar o debate das realidades geográficas empobrece o mandato: “A pauta somente ideológica, na busca de um poder para apoiar pautas nacionais, não contribui para melhorar a qualidade de vida do povo que, no caso de Roraima, sofre com o processo migratório e com o problema seríssimo de restrições ambientais”, afirma.
Fonte: G1 Política