Bancos elevam recomendações para ações brasileiras após eleições
O mercado financeiro reagiu de forma expressiva ao resultado do primeiro turno das eleições gerais, impulsionando o Ibovespa a superar sua máxima histórica e se manter acima dos 205 mil pontos no início da semana. Com esse cenário, grandes instituições financeiras estrangeiras decidiram rever suas projeções para o país.
Bancos globais veem potencial na Bolsa
Nomes de peso como J.P. Morgan, Morgan Stanley e Citi passaram a enxergar um panorama mais atraente para as ações brasileiras. O consenso entre esses investidores é de que o pleito entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre espaço para a implementação de uma reforma fiscal estruturante.
Segundo Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, o foco fiscal representa o principal ponto de atenção para o país.
“O Brasil tem vivido com alto prêmio de risco embutido nos ativos, e o fiscal é relevante nesse sentido. A descompressão de risco explica euforia de segunda-feira. Nas últimas eleições não tinha essa prêmio tão alto”, pontua Srour.
O J.P. Morgan elevou a recomendação do país de “neutral” para “overweight”, voltando a indicar a compra de ativos locais após ter rebaixado o mercado em agosto. Já o Morgan Stanley também mudou a perspectiva para compra, projetando uma alta de 15% a 20% para o Ibovespa até o final do ano, com potencial para alcançar os 250 mil pontos caso ocorram mudanças na política fiscal.
Cenário político e desempenho eleitoral
No domingo (4), o senador Flávio Bolsonaro terminou a primeira volta à frente, com 47,03% dos votos, enquanto o atual mandatário registrou 45,16%. Na segunda-feira seguinte, a Bolsa brasileira registrou o maior rali da história para um pós-primeiro turno, disparando mais de 7% e superando, pela primeira vez, a marca dos 200 mil pontos, atingindo o recorde intradiário de 209.605,70 pontos.
O time de estratégia do Citi avaliou favoravelmente o resultado e aumentou sua posição no país:
“Bolsonaro é o candidato mais favorável ao mercado, prometendo austeridade fiscal, privatizações, desregulamentação e cortes no IVA [Imposto sobre Valor Agregado]. O bom desempenho de seu partido no Senado deve facilitar a aprovação de sua agenda legislativa”, pondera o time de estratégia da casa, sublinhando o avanço da direita no Congresso como um fator que deve sustentar um eventual governo Flávio.
“Comparado ao atual presidente Lula, Bolsonaro é o candidato mais popular entre os investidores”, reforça.
O benefício da dúvida e os riscos fiscais
Apesar do otimismo recente, analistas apontam que ainda há incertezas sobre as medidas práticas que serão adotadas para equilibrar as contas públicas, visto que o plano de governo apresentado ao TSE carece de detalhes operacionais profundos.
“Por enquanto prevalece o benefício da dúvida. Passamos os últimos anos com aumento significativo do gasto obrigatório, que o arcabouço não conteve. Então, o mercado coloca o benefício da dúvida com preço importante”, pondera Solange Srour.
“A continuidade da política de hoje vai levar a dívida/PIB a subir, e entre um cenário em que o ‘mais do mesmo’ vai levar a crescimento mais acelerado da dívida e benefício da dúvida sobre o que virá, o mercado escolhe esperar”, pontua a diretora do UBS Global Wealth Management.
Nos bastidores, apurações indicam que a equipe econômica do candidato estuda um plano de corte de gastos na ordem de R$ 300 bilhões. No entanto, a necessidade de medidas impopulares gera cautela entre gestores locais e estrangeiros.
“Temos, inclusive, muitas gestoras locais questionando se o governo conseguirá superar a chamada fadiga do ajuste fiscal e até que ponto essas medidas serão efetivamente implementadas na prática”, aponta Fernando Saad Benatti, estrategista global da Avenue.
Por fim, os especialistas classificam o movimento atual como uma alocação tática, alertando que a volatilidade pode retornar caso as promessas econômicas não se concretizem após o segundo turno das eleições.
“Qual é o problema de ser uma alocação tática? É que, da mesma forma que esse dinheiro entra muito rapidamente quando o cenário melhora e a perspectiva para o país se torna mais positiva, ele também pode sair rapidamente quando a percepção de risco em relação ao Brasil aumenta”, afirma o analista da Avenue.
“E embora juros menores tendam a favorecer as empresas e a bolsa brasileira, o cenário continua desafiador, tanto do ponto de vista fiscal quanto do crescimento. O mercado ainda não tem clareza sobre a intensidade dessa desaceleração da economia brasileira”, conclui.
Fonte: Admin.cnnbrasil