Garimpo ilegal e a ameaça de soberania na rota do clã Bolsonaro
O avanço da atividade mineradora não regulamentada na floresta amazônica ganhou proporções alarmantes durante o mandato presidencial de Jair Bolsonaro, impulsionado por uma visão romântica da atividade. Ficou famosa a frase de Jair Bolsonaro de que ele mesmo gostava de “faiscar”, de pegar uma bateia e sair em busca de pepitas de ouro. Contudo, essa narrativa escondeu um desastre ecológico e social sem precedentes na região norte do país.
Crescimento recorde nas terras amazônicas
Levantamentos da plataforma independente Amazon Mining Watch demonstram que a velocidade de expansão dos garimpos foi vertiginosa entre 2019 e 2022. No começo daquele governo, o monitoramento espacial identificava 201,5 mil hectares de exploração aurífera. Ao final do mandato, o montante disparou para 401,5 mil hectares, equivalente a mais de três vezes a extensão territorial do Rio de Janeiro e representando um salto de 92%.
Em contrapartida, a mesma tecnologia baseada em inteligência artificial e imagens de satélite apontou uma desaceleração expressiva no ritmo de crescimento durante a terceira gestão de Lula, registrando alta de 24,3% e atingindo 499 mil hectares. A redução na velocidade de expansão veio acompanhada pelo reforço na fiscalização em territórios originários e pela desmobilização de maquinário pesado utilizado por criminosos ambientais.
Portas abertas e conexões com o crime
A facilidade de acesso de garimpeiros ilegais aos escalões superiores do poder federal ficou evidente em episódios investigados por veículos de imprensa. Uma investigação do The Intercept revelou gravações nas quais Eduardo Bim, então presidente do Ibama, órgão que deve zelar pela proteção ao meio ambiente, pedia para fiscais aliviarem a barra de uma empresa investigada por falsificar lavras de extração de ouro.
A proximidade entre o clã político e esquemas de mineração ganhou novos contornos recentemente com denúncias sobre a fuga de figuras ligadas ao governo anterior. Reportagem da Agência Pública indicou que um dos líderes de garimpos ilegais na Terra Indígena Yanomami atuou diretamente na fuga de Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, para território norte-americano.
Paralelos internacionais e riscos à soberania
Enquanto críticos da extrema direita historicamente tentavam associar gestões progressistas ao modelo venezuelano, o verdadeiro risco de aproximação com os vizinhos reside na gestão dos recursos naturais. A interferência externa na economia venezuelana gerou uma corrida frenética pelo ouro local, transformando o país em um centro de lavagem de minério ilegal que frequentemente utiliza rotas clandestinas conectadas aos garimpos remanescentes em terras indígenas brasileiras.
Nesse cenário, propostas ligadas ao grupo político de Flávio Bolsonaro sinalizam abertura para interferências estrangeiras no combate ao crime organizado, uma estratégia que historicamente gerou o acirramento da violência e a valorização de produtos ilícitos em nações vizinhas. A adoção de tais medidas ameaça transferir os lucros da exploração para potências externas, deixando para o país apenas o passivo da contaminação ambiental e a degradação dos ecossistemas.
Fonte: Agência Pública