Sexo na terceira idade: médicos admitem tabu no consultório
A discussão sobre a intimidade na maturidade ganhou destaque em um concorrido evento voltado para a geriatria, evidenciando que a população idosa continua ativa e interessada em manter relações sexuais, embora ainda enfrente barreiras significativas de comunicação com profissionais de saúde.
Estatísticas da atividade sexual na maturidade
Levantamentos apresentados durante o encontro demonstram que a porcentagem de pessoas sexualmente ativas varia conforme a faixa etária: 73% entre 57 e 64 anos, 53% entre 65 e 74 anos, e 26% entre 75 e 85 anos. Dentro deste último grupo, mais da metade mantém frequência de duas a três relações mensais.
Apesar desses índices expressivos, a maioria dos indivíduos com mais de 65 anos relata desconforto ao abordar o tema com médicos. Pesquisas indicam que apenas uma parcela minoritária discute o assunto espontaneamente, embora desejassem que o profissional tomasse a iniciativa para que a questão integrasse a rotina de atendimento.
Abordagem médica e saúde física
O geriatra Gustavo de Jesus Monteiro destacou a necessidade de romper as barreiras internas da medicina. “Precisamos abrir essa porta. A conversa tem que fazer parte da rotina do consultório e da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), assim como quando houver um novo diagnóstico, cirurgia pélvica, alteração ou ajuste de medicamento. Há pacientes que deixam de tomar um anti-hipertensivo ou antidepressivo porque a medicação interfere na sua vida sexual. Se não existe uma relação de confiança, o médico pode achar que há uma baixa adesão ao tratamento”, afirmou.
Segundo o especialista, a principal restrição para a prática não é a idade em si, mas sim condições de saúde física e mental, ressaltando que alterações decorrentes do envelhecimento podem ser tratadas com intervenções adequadas, revisão de medicamentos e adaptações na rotina íntima.
Prevenção de infecções e o papel da psicologia
A infectologista Thelma Flosi alertou para a importância de debater a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) sem preconceitos. “É preciso perguntar sobre os hábitos sexuais com naturalidade e apresentar as formas de prevenção. Os dados do Ministério da Saúde mostram que a taxa de detecção de Aids entre 2014 e 2024 caiu em todas as faixas etárias, com exceção daquela acima de 60 anos”, enfatizou. Para isso, recursos como DoxiPEP, PEP e PrEP estão disponíveis conforme as indicações médicas.
Complementando a discussão, a psicóloga Ana Cristina Nunes Barbosa ressaltou a necessidade de tratar o assunto com maturidade, evitando a infantilização da pessoa idosa. “Temos que romper com o tabu e a infantilização, que torna idosos assexuados, e debater o tema de forma madura e natural, com foco na autonomia, na saúde e no prazer. O constrangimento em esclarecer as queixas se dá, muitas vezes por falta de informação e formação adequada para seu uso na prática”, discorreu. A especialista também sugeriu abordagens mais empáticas na anamnese para facilitar a comunicação entre médico e paciente.
Fonte: G1 Bem-Estar