Tom Zé completa 90 anos como o mestre inquieto do tropicalismo
Nascido Antônio José Santana Martins em Irará, na Bahia, o cantor e compositor completa 90 anos neste domingo, mantendo a mesma vitalidade e o espírito inquieto que definiram sua carreira na vanguarda da música nacional.
O espírito vanguardista e a marca da confusão
O artista sempre carregou uma essência brincalhona e provocativa, características que remetem à figura de um erê. Não por acaso, os versos “Eu tô te explicando / Pra te confundir / Eu tô te confundindo / Pra te esclarecer” traduzem perfeitamente a genialidade de sua obra lançada há meio século. O autor baiano, inclusive, costumava reivindicar a autoria do famoso lema de Chacrinha, reforçando sua predileção por subverter expectativas em vez de entregar respostas fáceis ao público.
Atividade intensa e conexões históricas
Mesmo alcançando nove décadas de vida, o músico segue na ativa. Na sexta-feira, o veterano subiu ao palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro, para uma apresentação comemorativa, além de continuar desenvolvendo novos projetos musicais para expandir sua discografia singular.
Ao longo dos anos, o compositor esteve no centro de importantes articulações da música brasileira. Além de dividir os palcos baianos com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia no histórico show “Nós, por exemplo”, em 1964, o artista também deixou sua marca em outros coletivos fundamentais.
Parcerias com Mutantes e Novos Baianos
A ligação com o grupo Os Mutantes rendeu parcerias memoráveis com Rita Lee em faixas de grande repercussão. Menos conhecida, mas igualmente importante, é a sua relação com os Novos Baianos. Foi o próprio compositor quem deu aulas de violão a Moraes Moreira e o apresentou a Luiz Galvão em 1967, tornando-se o mentor do grupo formado no final daquela década.
A ovelha desgarrada do movimento
Apesar de fazer parte da gênese tropicalista, o cantor rapidamente se consolidou como a ovelha desgarrada do grupo. O foco do músico nunca foi o sucesso comercial ou a sintonia com as exigências da indústria fonográfica, priorizando sempre a experimentação estética.
Essa postura mercadologicamente imprevisível quase o levou ao ostracismo e ao abandono da carreira nos anos 1980, período em que pensou em retornar a sua cidade natal. A virada aconteceu em 1986, quando o músico americano David Byrne descobriu casualmente o álbum “Estudando o samba”, resultando em um encontro em São Paulo em 1988 que projetou o nome do brasileiro para o cenário internacional através do selo Luaka Bop.
Legado e coerência artística
A redescoberta impulsionou a criação de novos discos aclamados, como “Com defeito da fabricação”, “Estudando o pagode” e “Tropicália lixo lógico”, que se somaram a clássicos históricos de sua discografia. Aos 90 anos, o artista segue desafiando rótulos, provando que sua obra permanece atemporal e profundamente original.
Fonte: G1 Pop & Arte