Racionais MC’s: os bastidores do DVD 1000 Trutas, 1000 Tretas
Há duas décadas, os Racionais MC’s marcavam a história do rap nacional com o lançamento de seu primeiro DVD oficial, batizado de 1000 Trutas, 1000 Tretas. O projeto audiovisual, que levou mais de quatro anos para ser finalizado, consolidou os principais fundamentos do grupo formado por Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay: produção independente, forte conexão com as periferias e total autonomia artística.
O caos da primeira tentativa no Brás
O projeto começou a tomar forma após o sucesso estrondoso do álbum duplo “Nada Como um Dia após o Outro Dia”, lançado em 2002. Para registrar o momento áureo, o quarteto organizou uma gravação grandiosa no galpão Casaluce, localizado no bairro do Brás, na região central de São Paulo. Embora a capacidade máxima fosse de três mil pessoas, o espaço recebeu cerca de 10 mil fãs, gerando um cenário de lotação extrema que prejudicou o andamento da apresentação.
“A falta de hits e a preocupação com o roteiro do DVD não ajudaram o show a decolar. Isso, somado ao cansaço pelo acúmulo de horas em que as pessoas estavam em pé, refletiu-se numa receptividade apenas morna da plateia em parte do show — ao contrário do que se insinuou na abertura, quando o público recebeu o grupo aos urros, com socos no ar. Os momentos de pico se deram com ‘Negro Drama’ e, principalmente, ‘Vida Loka 1′”, registrou a crítica da época.
A superlotação do evento acabou gerando danos físicos à estrutura técnica montada para o registro.
“Com a superlotação, alguns cabos acabaram sendo pisados e danificados, comprometendo a captação, e aquele material não pôde virar o DVD. A gente podia ter parado ali, mas decidiu fazer de novo”, explica Mano Brown.
A superação e a nova gravação no Sesc Itaquera
Decididos a não desistir, os músicos uniram forças com o diretor Roberto T. Oliveira, proprietário da Sindicato Paralelo Filmes. A parceria se fortaleceu após o cineasta acompanhar o grupo em turnês nacionais e internacionais pelo Japão, Estados Unidos e Europa. Durante esse período, os Racionais mantiveram políticas rígidas para seus shows: ingressos acessíveis e ausência de policiamento ostensivo fazendo a segurança no palco.
“Isso ajudou a criar uma conexão com todo o grupo. Durante anos, eu estava ali no palco, nos bastidores, gravando um acervo incrível. Construímos uma amizade e eu também passei a entender melhor cada um. Óbvio que, na hora de gravar, essa proximidade ajuda no resultado final”, relata o diretor.
Com um custo estimado em R$ 400 mil na época — valor que equivaleria hoje a cerca de R$ 1,5 milhão —, a nova diária de gravação ocorreu em abril de 2004, durante um show no Sesc Itaquera, na Zona Leste paulistana.
“Eu não ganhei nem cachê para o DVD. Eu sabia que não era um projeto fácil e eles sempre me pagaram religiosamente. A gente fez no amor, por isso que saiu. Os Racionais são leais, eles escolhem a dedo quem trabalha com eles. Fico feliz de ter feito parte não só desse projeto, mas de ter contribuído com a cultura e ter mantido uma amizade com o grupo, principalmente com Mano Brown”, complementa Roberto.
A cenografia do espetáculo, idealizada por Flávio Sadella, teve como grande inspiração visual o sucesso “Vida Loka Pt. 2”.
“Eu participei da concepção para o primeiro show. Fizemos algumas reuniões na nossa casa e decidimos por essa reprodução da favela, com algumas características específicas, pensando na liberdade que eles queriam também para improvisar na hora”, detalha Sadella. “O que mais me encanta é saber que fizemos um trabalho visionário. À época, não tinha led, a tecnologia era outra. Você vê o Palco Favela, do Rock in Rio, por exemplo, e há uma inspiração clara no que foi esse DVD.”
Participações inusitadas e imprevistos no palco
A abertura do projeto contou com a presença ilustre de Jorge Ben Jor, cuja participação foi definida de última hora. O músico encontrou-se com Mano Brown no camarim enquanto cortava o cabelo e recebeu a indicação de interpretar uma faixa menos comercial de seu repertório: “Abenção Mamãe, Abenção Papai”, lançada em 1984.
Outro momento marcante envolveu o cinegrafista Rodney Suguita durante a execução de “Vida Loka Pt. 2”, quando Ice Blue saltou em direção à plateia e acabou danificando o equipamento de trabalho.
“Eu era o único cinegrafista ‘livre’, então fui com a câmera para o camarim e, durante o show, fiquei no público, rodando. Quando o Blue foi para o público, ele foi dando tapa para tudo quanto é lado e acabou acertando a lente e o visor, que quebrou. Gravei todo o resto sem um retorno de imagem”, conta o profissional. “Eu estava muito cansado, foi uma longa diária. No fim das contas, eu fiquei 15 horas em pé para pegar um take de 30, 40 segundos. Mas valeu a pena porque entrou para a história.”
Legado cultural e impacto digital
Lançado oficialmente em outubro de 2006, o material funcionou tanto como registro de palco quanto como um documentário intimista sobre a rotina dos artistas. O impacto cultural da obra atravessou gerações e hoje acumula milhões de acessos nas plataformas de streaming e redes sociais, consolidando-se como um marco definitivo da música urbana brasileira.
“Não tiene prova maior de sucesso do que essa”, conclui Roberto.
Fonte: G1 Pop & Arte