Por que edifícios antigos reduzem o estresse e a arquitetura moderna esgota o cérebro
Visitar igrejas barrocas, centros históricos ou antigos casarões costuma provocar uma desaceleração imediata no ritmo cardíaco e na respiração. Em contrapartida, retornar a apartamentos modernos pode gerar uma sensação inexplicável de esgotamento e cansaço mental, fenômeno que passou a ser investigado por especialistas que unem arquitetura, psicologia ambiental e neurociência.
O impacto invisível dos espaços urbanos
A neuroarquitetura analisa de que maneira elementos como iluminação, texturas, cores, pé-direito, formas e ruídos provocam alterações fisiológicas diretas, mexendo com a frequência cardíaca, a condutância da pele e a produção de cortisol. O campo se institucionalizou nos anos 2000 por meio da Academia de Neurociência para a Arquitetura (ANFA) nos Estados Unidos, expandindo-se para centros de pesquisa na Europa e na América do Norte.
A arquiteta Andréa de Paiva, mestre em arquitetura com foco em neurociência pela Middlesex University, de Londres, e fundadora do NeuroAU, núcleo brasileiro dedicado à neuroarquitetura, ressalta que a maior dificuldade reside na capacidade de notar essas influências no cotidiano. “Muitos dos efeitos do ambiente decorrem daquilo que a gente não percebe”, afirma.
A especialista destaca que a avaliação não se baseia em gostos pessoais, mas em respostas automáticas do organismo diante de estímulos visuais ou sonoros excessivos, que podem gerar sensações inconscientes de insegurança.
A geometria dos fractais na arquitetura histórica
Um dos fatores apontados para explicar o conforto em construções do passado está na geometria de suas fachadas. Ornamentos, cornijas, frisos, azulejos e esquadrias detalhadas reproduzem escalas semelhantes às encontradas em árvores, nuvens e linhas de costa, estruturas conhecidas como fractais.
Investigações conduzidas há cerca de vinte anos pelo físico Richard Taylor, da Universidade de Oregon, demonstraram que fractais de complexidade intermediária, parecidos com os da natureza, conseguem diminuir indicadores de estresse fisiológico em até 60%.
De acordo com o grupo de estudo, o sistema visual humano desenvolveu-se rodeado por essas formas, processando-as com facilidade. “As pessoas realmente precisam de ambientes estéticos para se manterem saudáveis”, disse o pesquisador.
Em contrapartida, superfícies lisas e ângulos retos repetidos presentes em edificações contemporâneas situam-se no extremo da baixa complexidade, enquanto padrões excessivamente complexos geram desconforto.
Pé-direito alto e a sensação de liberdade
Outro diferencial das edificações históricas é a altura superior. Enquanto casarões coloniais, estações ferroviárias e templos antigos contam frequentemente com mais de 3,5 metros de pé-direito, os novos apartamentos brasileiros variam de 2,50 a 2,70 metros.
Em 2015, um experimento coordenado pelo psicólogo Oshin Vartanian, da Universidade de Toronto, utilizou ressonância magnética funcional para avaliar o cérebro de voluntários diante de imagens de interiores. Ambientes elevados foram avaliados como mais atraentes, e cômodos apertados motivaram o desejo de saída. “Esses ambientes estimulam a exploração visuoespacial”, afirmou o pesquisador, acrescentando que tetos altos ativam áreas cerebrais relacionadas à atenção espacial.
Grandes janelas, comuns antes da chegada do ar-condicionado e da luz elétrica, potencializam o efeito ao trazer luz natural e ventilação, enquanto paredes espessas de taipa, adobe ou pedra atenuam ruídos e variações térmicas.
Fachadas monótonas e o esgotamento no lar
O impacto visual também se manifesta nas ruas. O neurocientista Colin Ellard, da Universidade de Waterloo, conduziu caminhadas com voluntários em Londres e Toronto para monitorar a condutância da pele diante de fachadas variadas. “Edifícios de baixa complexidade foram percebidos como muito entediantes e pouco atraentes”, afirmou o pesquisador, ressaltando que superfícies homogêneas geram tédio fisiológico.
No entanto, o esgotamento doméstico vai além da arquitetura e envolve o significado do espaço. Com o trabalho remoto, a casa acumulou funções de escritório, academia e área de descanso, ocupando grande parte do tempo conforme dados da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).
Investigação da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), publicada em 2010, avaliou casais em visitas guiadas. Mulheres que mencionaram mais desordem e tarefas inacabadas apresentaram piores níveis de cortisol e humor deteriorado ao longo do dia.
“A bagunça está nos olhos de quem vê”, afirmou a autora principal do estudo, Darby Saxbe, atualmente professora de psicologia da Universidade do Sul da Califórnia (USC). Para a especialista, o domicílio perde o papel de refúgio ao virar uma lista interminável de pendências.
Em museus ou igrejas, por outro lado, o visitante não possui tarefas acumuladas, permitindo que a atenção repouse sem exigências, processo chamado por Rachel e Stephen Kaplan de restauração da atenção.
Limites da ciência e alternativas para o lar
Especialistas alertam contra a transformação dessas constatações em dogmas. Espaços antigos são visitados em momentos de lazer, carregam memória afetiva e passaram por uma seleção histórica que preservou os melhores exemplares. “A ciência ainda não consegue definir um edifício ideal”, pondera Cleo Valentine, pesquisadora da Universidade de Cambridge especializada em neurofisiologia aplicada à arquitetura.
Apesar disso, é possível adotar ajustes em apartamentos compactos. As recomendações incluem priorizar luz natural, utilizar iluminação mais quente à noite, incorporar plantas e texturas naturais, diminuir objetos à vista e delimitar áreas de trabalho e descanso, transformando a relação com o espaço vivido.
Fonte: Admin.cnnbrasil