‘A eleição passou’: em primeiro pronunciamento após resultado, Tarcísio pede ‘pacificação’ e critica ‘interferência do Judiciário’ e ‘uso da máquina’
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) se pronunciou, nesta terça-feira (26), pela primeira vez sobre o resultado da eleição presidencial que deu a vitória a Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), reconhecendo a vontade das urnas. Em um vídeo publicado em suas redes sociais, ele afirma por seis vezes que a “eleição passou”, agradece ao aliado pela “caminhada” e aos eleitores pelos quase 60 milhões de votos, diz que agora é hora da “união” da oposição como “fiscal do governo” e critica “excessos do Judiciário e uso da máquina” durante a campanha.
— Foram 60 milhões de brasileiro e, a cada um de vocês, muito obrigado. Obrigado Flávio, por caminhar com a gente, foi incrível essa caminhada. A eleição passou, mas não passou o desejo de ministérios com nomes técnicos e sérios, de um país que não gaste mais com os juros da dívida do que com saneamento básico, saúde e educação, que corte privilégios antes de pedir sacrifícios, e que combata o crime de verdade, não só no discurso. Esse desejo tem nome: chama-se projeto de país — disse.
Tarcísio falou que o país segue “fraturado e dividido” e que isso exige responsabilidade tanto do presidente eleito quanto da oposição, e mencionou desafios econômicos e de pacificação do país.
— Reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos. O uso da máquina, programas lançados fora do prazo, a interferência do Judiciário, tudo isso marcou esta eleição e precisa deixar lições. Ontem, vimos investidores saindo, a bolsa despencando, empresas perdendo valor, câmbio disparando. As promessas de campanha precisam ser examinadas com rigor, porque a conta sempre chega para o contribuinte. A eleição passou, mas a falta de confiança fica — acrescentou.
Tarcísio pregou a união da direita e afirmou que o Congresso precisa de “unidade” para cobrar e fiscalizar o próximo governo Lula.
—Agora é hora de unidade, de uma oposição vigilante que cobre responsabilidade fiscal, que proponha aquilo que melhora a vida das pessoas e que fiscalize de perto quem governa pelos próximos quatro anos. Porque se a economia piorar, não vai piorar só para quem votou de um lado, vai piorar para todos os brasileiros. O Congresso terá um papel fundamental na pacificação do país, na sonhada pacificação, no aperfeiçoamento do sistema político e no funcionamento das instituições, incluindo o Judiciário. E aqui em São Paulo nós vamos seguir trabalhando, fazendo entregas, olhando por quem mais precisa — finalizou.
Tarcísio se reuniu com Flávio na última segunda, em Brasília, e foi um dos que aconselhou o candidato a reconhecer o resultado eleitoral. Durante a campanha, o governador foi um dos principais articuladores do candidato ao Planalto, inicialmente em São Paulo, mas a partir do segundo turno, passou a acompanhá-lo inclusive em outros estados.
O governador esteve com o senador durante a apuração em Brasília no domingo, e também no primeiro pronunciamento do candidato após o fim da apuração. No discurso, Flávio não reconheceu a derrota e afirmou que iria contestar o resultado, alegando que a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de estender por duas horas o horário de votação foi uma mudança na “regra do jogo no meio do jogo” e que teria beneficiado o rival.
Nesta segunda, porém, Flávio mudou a estratégia e, em vez de insistir na anulação dos resultados eleitorais, decidiu pedir a cassação da chapa de Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) por abuso de poder econômico, devido promessas e medidas anunciadas pelo adversário a dias da eleição, como o aumento do Bolsa-Família, a tarifa zero no transporte público de todo o país aos fins de semana e o perdão das dívidas de microempreendedores individuais (MEIs).
Também na segunda, Flávio foi intimado a entregar seu passaporte, após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Ele deveria ter entregado o documento até a manhã desta terça-feira, mas não o fez e a PF já informou que vai cancelar o passaporte. Desde a manhã desta terça, entretanto, o senador está sumido e a PF investiga se ele fugiu do Brasil. Durante a madrugada, o site argentino Infobae reportou que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) chegou à Argentina, em Puerto Iguazú, onde pegaria um voo particular rumo a Miami, nos Estados Unidos. O voo foi cancelado.
Em nota enviada no fim da manhã desta terça, a Direção Nacional de Imigração e a Casa Rosada afirmaram não ter registrado qualquer entrada de Flavio Bolsonaro na República Argentina. Diante da repercussão do caso, disseram os órgãos, as autoridades iniciaram os procedimentos de fiscalização da aeronave e da tripulação. Aliados do senador, porém, não estão conseguindo contato com o candidato.
Fonte: GLOBO