O dia em que eu larguei o Direito (e quase morri)
Uma primeira respiração mais curta. A próxima também não passa aquela sensação de fôlego recuperado. Viro de lado na cama, a janela está aberta, a luz chega nos meus olhos. Uma sensação de aperto estranha no peito, como se o ar não entrasse por completo. É sexta-feira, são três da tarde e garoa lá fora. Resolvi tirar um cochilo rápido, na tentativa de compensar as noites curtas de sono. Olho o relógio, ainda poderia dormir alguns minutos, mas não consigo retomar o cochilo. Insisto de olhos fechados, mas a cabeça já acende o alerta.
Viro mais algumas vezes, de um lado para o outro, até que resolvo sentar na ponta do colchão. O espelho à frente me mostra o traje típico de um advogado em home office. Meias, samba-canção e camisa social. Olho para o chão e me sinto tonto, como se estivesse desorientado. O meu lado médico, formado por temporadas de séries hospitalares, já pensa: “Você está tendo um AVC ou infarto. 31 anos, tão jovem.” Olho novamente para o espelho e sorrio para checar a simetria do corpo. Tudo certo. Levanto as duas mãos para o alto. Tudo certo.
Tento me convencer de que os sintomas não passam de impressão. Fico de pé e a tontura bate muito mais forte. Agora, o negócio é sério. Inicio um modo de sobrevivência: ligo para o meu namorado da época e apenas digo para ele vir correndo, pois estou morrendo. Desligo o celular, vou até a porta de casa e destranco a fechadura (para que o resgate consiga entrar ao encontrar meu corpo desacordado). Na sequência, mando uma curta mensagem no grupo de WhatsApp do prédio: “Apartamento XX, estou passando mal… venham!”
Etapas concluídas, é só aguardar para ver se a ajuda chega a tempo. Deito no sofá e, enquanto aguardo o início da retrospectiva da minha vida, só consigo pensar em uma coisa: “Eu vou morrer de estresse por causa da advocacia. O medo de tomar a decisão de seguir apenas com o meu trabalho nas redes sociais, e abrir mão de uma carreira estável que levei anos para construir, está me fazendo levar uma vida dupla insustentável. A culpa é minha.” O pensamento é interrompido pela primeira vizinha que aparece na sala sem entender nada.
Não vou contar detalhes de como meu antigo namorado chegou na sala, todo molhado do tombo que levou ao correr na chuva, e se deparou com um círculo de senhoras ao meu lado, porque ainda não superei essa vergonha. Ele me fez ligar para o meu cardiologista, porque o Pedro de 31 anos hipocondríaco já tem um, que ouviu meus sintomas e perguntou se eu tinha um frasco de calmante em casa. Obedeci, coloquei três gotas na língua e em poucos minutos agradeci às senhoras e as liberei para retornarem aos seus apartamentos.
Apesar de traumática — e dramática — a experiência trouxe uma consequência prática. Na semana seguinte, criei coragem de conversar com os sócios e informar sobre a vontade de sair do escritório para seguir com minha segunda profissão. Eu tinha chegado no meu limite e meu corpo precisou me avisar. Até hoje não tive coragem de acessar o histórico do grupo do WhatsApp do prédio para ler as respostas ao meu chamado de socorro. Às vezes, ter coragem de tomar decisões antes pode te poupar de viver grandes constrangimentos (e incomodar os vizinhos).
Fonte: GLOBO