Economia do ES: Tradição do pescado movimenta rios, mar e tanques
A tradição milenar da pesca e a criação de peixes desempenham um papel fundamental na economia e na cultura do Espírito Santo, conectando rios, mar e tanques de cultivo em todo o território capixaba.
Tradição indígena e os impactos ambientais
Na Aldeia Piraquê-Açu, em Aracruz, o cacique Kara’í Perú e a mãe, Keretxu Emdey, realizam rituais tradicionais para abençoar as águas. No entanto, as transformações no Rio Piraquê-Açu alteraram drasticamente a rotina das famílias locais, que precisaram buscar alternativas como a piscicultura.
“O rio, para nós, é uma vida. É de onde a gente ‘tira peixe, tira outras coisa’ do rio pra poder alimentar nossa família. Deus criou o rio e a gente tem que cuidar dele”
“Eu mesmo tenho dez anos que não pesco nesse rio. Mais de dez anos! A gente não come peixe desse rio mais. Eu tenho que comprar porque não tem como”
“O rio tá morto”
A união da cadeia produtiva e o cooperativismo
Para fortalecer o setor pesqueiro e a aquicultura, entidades como o Sindipesca-ES e cooperativas atuam na organização de pequenos produtores, garantindo escoamento da produção e fornecimento de insumos essenciais.
“O pescador conhece a lua, o vento, o comportamento dos animais, os lugares onde eles aparecem e o momento certo de sair para o mar. É um saber construído ao longo de gerações. A pesca é uma cultura que está viva na mente do pescador. Por isso, quando ele morre, acaba”
“A ideia é organizar uma cadeia que muitas vezes trabalha de forma fragmentada e fortalecer quem está na ponta”
Profissionalização e inovação na pesca
Novas gerações buscam aliar o conhecimento tradicional à formação técnica. Estudantes de engenharia de pesca e produtores rurais investem na modernização da atividade para garantir sustentabilidade financeira.
“A pesca é sofrida, é uma atividade bonita para quem vê, mas na prática é sofrida”
“O pescador sai para o mar sem saber exatamente quanto vai conseguir capturar e, muitas vezes, sem saber se a venda da produção vai compensar os gastos da viagem, como combustível, gelo e alimentação”
“Depois de formada, meu desejo é continuar trabalhando com a minha peixaria e levar o conhecimento e as informações à classe, ajudar naquilo que for possível, porque eu sempre digo que eu sou uma defensora da pesca. Então, eles sempre podem contar comigo. E o que eu posso fazer para ajudar, seja na compra do pescado, seja na valorização, eu tô aí”
Crescimento da piscicultura em tanques
Em regiões como Domingos Martins, a criação de tilápias em tanques consolida-se como importante fonte de renda complementar, impulsionada pelo suporte de cooperativas locais.
“Saí, estudei e agora a gente consegue aprimorar as demandas da nossa produção, fazer com que seja mais produtivo e lucrativo”
“Quando chega o momento da despesca (tirar o peixe do tanque), é preciso retirar, pesar, resfriar e transportar os animais rapidamente. É um dia de trabalho pesado, mas também de comemoração. A gente reúne umas 12 pessoas. As redes são puxadas, os peixes são colocados nas caixas, pesados e insensibilizados no gelo antes de seguirem para o processamento. É uma festa”
“Quando a gente precisa de comprar ração por fora, o custo acaba ficando um pouco mais elevado, porque você tem que comprar e pagar à vista. Então, com a cooperativa a gente compra pra pagar no final do ciclo, a gente paga com a venda do próprio peixe”
“Não somos só tilápia, não. A gente trabalha com vários outros produtos, como citros, lojas para atender nossos cooperados e alimentação escolar. Nossa tilápia atende ao mercado do Espírito Santo, mas também no Rio de Janeiro e em São Paulo”
Dados do setor no estado
Com milhares de profissionais registrados e apoio governamental por meio de editais e financiamentos, a atividade busca novos horizontes de modernização.
“Uma coisa é um produtor ou um pescador ir lá individualmente fazer uma aquisição. Outra coisa é ele estar organizado e fazer uma grande aquisição via cooperativa. Ele consegue descontos maiores. Ou seja, com o cooperativismo, dá escala para se vender e dá uma dimensão para se comprar. Você ganha tanto na venda quanto na aquisição dos insumos necessários à pesca”
O futuro do setor no Espírito Santo depende da harmonia entre a preservação ambiental dos recursos hídricos, o fortalecimento da pesca artesanal e o avanço tecnológico da aquicultura comercial.
“É um canto que a gente pede lá na Casa de Reza. Com o coração mesmo que Deus vai ouvir esse canto que eu fiz para ele. Tá? É um canto de benção para os rios, para os mares, para os peixes que Deus vai olhar para nós todos, inclusive. E abençoar”
Fonte: G1 Meio Ambiente