O segredo biológico de Jonathan, a tartaruga de 194 anos
Com impressionantes 194 anos de idade, a tartaruga-gigante Jonathan detém o título de animal terrestre mais longevo do mundo. Contemporâneo de Charles Darwin e sobrevivente de duas guerras mundiais, além de pandemias como a covid-19, o réptil teve sua genética investigada por uma equipe internacional de cientistas para decifrar os mecanismos biológicos por trás de sua longevidade extrema.
História e chegada a Santa Helena O famoso exemplar pertence à espécie das tartarugas-gigantes-das-Seychelles (Aldabrachelys gigantea hololissa). Nascido por volta de 1832, o animal foi levado das Ilhas Seychelles para a ilha de Santa Helena em 1882. A viagem ocorreu como um presente para Sir William Grey Wilson, recém-nomeado governador daquele território britânico ultramarino no Atlântico Sul. Naquela época, a tartaruga já contava com cerca de 50 anos de idade e, desde então, habita os jardins da residência oficial do governo local.
Métodos de investigação científica Para compreender esse recorde de longevidade, pesquisadores de instituições dos Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca e Alemanha realizaram análises detalhadas. O material genético de Jonathan foi obtido por meio de raspagens na bochecha e de coletas de sangue feitas pela boca, após o animal ser atraído com alimento para abrir bem a mandíbula. O estudo comparou esses dados com amostras de outras quatro tartarugas da mesma espécie, abrangendo espécimes jovens e velhos. Os resultados completos foram publicados na revista científica Science Advances.
Variantes genéticas e proteção contra o envelhecimento O sequenciamento genômico revelou que o réptil não exibe sinais de deterioração no DNA. Os especialistas identificaram 287 variantes genéticas exclusivas que mitigam os impactos do envelhecimento. Tais variações regulam funções vitais do organismo, combatendo processos inflamatórios, suprimindo o desenvolvimento de câncer, controlando a insulina e otimizando o reparo celular.
O papel fundamental do metiloma Além do DNA, os cientistas examinaram o metiloma completo de Jonathan, mapeando as marcas químicas que determinam quais genes permanecem ativos ou inativos nas células. A análise da entropia da metilação demonstrou que o “ruído” químico é extremamente baixo em genes associados à função mitocondrial, ao reparo genômico e ao processamento de RNA. Essa estabilidade indica uma notável resistência biológica ao desgaste temporal.
Perspectivas futuras para a medicina humana “Em Jonathan, os reguladores genéticos envolvidos na produção de energia e no reparo do DNA permaneceram incrivelmente estáveis durante quase dois séculos, o que é notável, pois geralmente eles se deterioram com o tempo”, aponta um dos autores, Justin Gerlach, pesquisador de ecologia de tartarugas-gigantes na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
“O genoma de Jonathan nos oferece um modelo de resiliência celular. Agora, nosso objetivo é aproveitar esses conhecimentos evolutivos e traduzi-los imediatamente em tratamentos práticos e acessíveis para as pessoas comuns”, destaca outro autor, Stephen Clark, diretor da Fundação Kallel, que estuda os processos de envelhecimento.
Com uma transcrição genética de alta fidelidade e mecanismos celulares preservados, Jonathan continua a desafiar os limites biológicos do envelhecimento, oferecendo pistas valiosas que podem, no futuro, beneficiar a saúde e a longevidade humana.
Fonte: G1 Meio Ambiente