Mitos eleitorais caem por terra na disputa presidencial
As coligações partidárias perderam o protagonismo tradicional nas eleições estaduais deste ano, mostrando que alianças extensas já não garantem vitórias automáticas nos principais colégios eleitorais do Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) articulou uma ampla rede de apoios, mas acabou derrotado por Douglas Ruas (PL), que concorreu com uma chapa restrita a siglas menores como Avante, Mobiliza e Agir.
O peso real das alianças partidárias A falta de eficácia das grandes coligações também ficou evidente em Minas Gerais, onde o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) conquistou o governo estadual apoiado apenas pelo Podemos, desbancando adversários com bases muito mais robustas.
Especialistas apontam que a construção de identidades políticas e o apelo antissistema superaram a tradicional lógica de distribuição de cargos e tempo de rádio e TV. Sobre essa dinâmica, o cientista político e professor Rodrigo Prando avalia:
— As alianças foram necessárias, mas não suficientes, e pesaram menos do que as identidades políticas, nesse caso, o lulopetismo e o bolsonarismo. As coligações dão tempo de TV e estrutura partidária, mas não têm a capacidade essencial de transferir voto que a gente imagina.
Igrejas e o novo perfil dos parlamentares Nas disputas legislativas, candidatos endossados pelas principais igrejas evangélicas enfrentaram reveses expressivos. Nomes tradicionais da Assembleia de Deus e da Universal viram suas votações despencarem ou amargaram derrotas nas urnas para a Câmara dos Deputados.
Em contrapartida, houve o fortalecimento de parlamentares conservadores com forte presença digital, independentemente de vínculos formais com denominações religiosas.
Emendas bilionárias e a fidelidade local Mesmo com um volume recorde de R$ 61 bilhões no orçamento, as emendas parlamentares tiveram impacto limitado na captação de novos votos, registrando uma variação média de apenas 0,8% em comparação ao pleito anterior.
Segundo George Avelino, professor da FGV, o repasse funciona primordialmente como instrumento de manutenção de bases políticas já estabelecidas:
— A emenda é paga para manter apoios e votos. Isso se dá, por exemplo, numa disputa entre um desafiante e um incumbente, que já se provou nas urnas antes e que tem a confiança do partido. Assim, ele se torna poderoso do ponto de vista eleitoral e tem mais chances de ganhar a eleição, mas não tem a vitória como algo garantido.
A força da máquina pública em questão O controle da máquina administrativa tampouco assegurou a sobrevivência política de gestores no primeiro turno. Cinco governadores que assumiram o Executivo recentemente perderam a disputa, reforçando que o capital político pessoal ainda se sobressai diante da estrutura do Estado.
O desgaste das candidaturas alternativas e o voto útil O descontentamento com a polarização tradicional abriu espaço para um expressivo contingente de eleitores independentes, mas a chamada terceira via registrou o pior desempenho desde a redemocratização.
A dinâmica das urnas continuou guiada pelo sentimento de rejeição e pela busca por quem pudesse derrotar o adversário principal, consolidando a disputa entre os blocos liderados por petistas e bolsonaristas.
Fonte: GLOBO