Crise climática: danos à saúde Exigem emergência global
O avanço das mudanças globais no clima tem provocado prejuízos cada vez maiores e acelerados à população mundial. Mesmo com acordos internacionais firmados para tentar conter o aquecimento do planeta, os danos superam a capacidade de resposta da comunidade internacional, segundo um levantamento publicado na revista científica “The Lancet”.
Alerta da ciência e dados de mortalidade O levantamento aponta que as altas temperaturas estiveram ligadas a cerca de 710 mil óbitos em 2023, estabelecendo o patamar mais alto já registrado para um único ano. Desse montante, 71,5% foram causados pelas interferências humanas no clima.
Diante desse cenário, cientistas que integram o Lancet Countdown — iniciativa com mais de 140 pesquisadores e apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS) — recomendam que o aquecimento global seja tratado formalmente como uma crise sanitária de proporções mundiais.
“Uma década após o Acordo de Paris, nossas conclusões são inequívocas: os danos das mudanças climáticas à saúde estão crescendo mais rapidamente do que a resposta mundial a eles e, em muitos casos, estão até se acelerando”, afirmou Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown.
Eventos extremos e reflexos no Brasil Entre 2016 e 2023, o calor resultou em uma média anual superior a 540 mil mortes. Em 2023, esse índice ultrapassou individualmente as estimativas de óbitos causados por enfermidades como malária e HIV.
Especialistas reforçam que o fenômeno intensifica condições cardiorrespiratórias preexistentes. No Brasil, o cenário reflete essa tendência através de secas prolongadas, enchentes e ondas intensas de calor.
“A conclusão é preocupante e consistente com o que observamos no Brasil. O relatório da Lancet Countdown mostra que os riscos climáticos para a saúde estão se agravando”, afirmou ao g1 Christovam Barcellos, pesquisador sanitarista da Fiocruz.
Além do impacto imediato de tragédias como a enchente no Rio Grande do Sul e a estiagem na Amazônia, o pesquisador aponta que há lacunas na medição de consequências a médio prazo, a exemplo de surtos de infecções e agravamento de doenças crônicas.
Desafios nos sistemas de saúde e combustíveis fósseis O estudo aponta ainda que as secas atingiram mais da metade das terras do planeta em 2025, enquanto temporais afetaram quase 18% das áreas terrestres anualmente na última década.
Embora mais nações tenham adotado planos de adaptação sanitária e o investimento em energias renováveis tenha batido recorde, o financiamento para países em desenvolvimento ainda é escasso. O mundo segue dependente de combustíveis fósseis, que respondem por mais de 80% da matriz energética global e geram milhões de mortes anuais devido à poluição do ar.
“As mudanças climáticas são uma das maiores ameaças à saúde enfrentadas pela humanidade. Seus impactos já podem ser observados no agravamento do estresse térmico, dos eventos climáticos extremos, da insegurança alimentar e das doenças”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.
Para reverter o quadro, especialistas defendem o reforço de investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), integração de políticas públicas e corte efetivo nas emissões poluentes.
Fonte: G1 Meio Ambiente