Funk de direita: políticos conservadores usam ritmo nas eleições
Durante a disputa eleitoral de 2026, candidatos conservadores adotaram jingles no estilo funk para dialogar com o eleitorado jovem e buscar engajamento nas plataformas digitais. A tática, contudo, falhou em atrair os principais expoentes do ritmo musical e acabou gerando acusações de incoerência política.
Apropriação cultural e atos de campanha
Figuras públicas como Eduarda Campopiano (PL), Nikolas Ferreira (PL), Lucas Pavanato (PL) e Flávio Bolsonaro incorporaram o ritmo em comícios e eventos públicos. No dia do segundo turno, em 25 de janeiro, o Spotify registrou que seis das 50 faixas mais executadas no país eram dedicadas a apoiar o candidato liberal à presidência ou a criticar Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As adaptações musicais dominaram as caixas de som de apoiadores. Um dos trechos mais populares trazia o verso “Quem ficar parado é petista disfarçado”, estimulando a mobilização popular. Em Vitória (ES), Flávio Bolsonaro chegou a dançar sobre um trio elétrico ao lado de aliados como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
Contradições e o histórico da CPI dos Pancadões
A adoção do gênero gerou atrito com discursos anteriores de parlamentares de direita, que frequentemente associam o estilo à chamada narcocultura, definida como o conjunto de valores ligados ao tráfico de drogas. Para contornar as críticas, esses políticos passaram a argumentar que a oposição não é direcionada ao estilo musical em si, mas às letras e aos eventos de rua nas comunidades.
Em São Paulo, o episódio ganhou contornos marcantes com Lucas Pavanato, que comemorou sua vitória para a Câmara dos Deputados ao som de funk. Anteriormente, na função de vereador paulistano, ele atuou como relator da CPI dos Pancadões, comissão que investigava a perturbação do sossego e bailes irregulares.
O relatório final da comissão classificou os bailes como “espaços de difusão e normalização da chamada narcocultura”. Nomes como MC Ryan SP e MC Dricka prestaram depoimento na ocasião e protestaram contra a forma estigmatizada com que a cultura funk foi tratada pelos parlamentares.
Polarização e o posicionamento dos artistas
Historicamente apolítico desde a sua ascensão nos anos 2010, o funk paulista viu sua relação com a política institucional mudar drasticamente ao longo dos anos. A primeira aproximação ocorreu quando Rodrigo Oliveira, fundador da GR6, candidatou-se a vereador em São Paulo, obtendo pouco mais de oito mil votos e ficando de fora da Câmara.
Nas disputas presidenciais de 2018 e 2022, o cenário polarizou a classe artística. Em 2022, grandes nomes e empresários do setor, como Konrad Dantas (Kondzilla), encontraram-se com Lula e manifestaram apoio ao petista.
Dois anos depois, no entanto, o panorama mudou. Enquanto Ricardo Nunes buscou aproximação com a indústria ao visitar a GR6 — recebendo apoio de figuras como MC Ryan SP e Henrique Alexandre Barros Viana, o “Rato”, da Love Funk —, Pablo Marçal também angariou apoio no meio musical para impulsionar sua comunicação com a juventude.
A aliança de líderes do funk com a direita provocou reações intensas de outros artistas e do público, resultando em um alinhamento de grande parte dos funkeiros com Lula ou na adoção da neutralidade em 2026, com nomes como MCs Hariel, Tuto, PH e IG, sem que isso impedisse o uso livre das batidas pelos conservadores.
Defesa da liberdade criativa e reações internas
Do ponto de vista dos defensores da estratégia, o uso do ritmo é defendido com base na liberdade artística. Pavanato afirmou que Pavanato, por exemplo, afirmou que “o problema com o funk, por óbvio, é a letra, não o ritmo”.
Por outro lado, o uso político das canções também encontrou resistência dentro do próprio espectro conservador. Renan Santos, que já associou o ritmo a práticas de “narcoterroristmo”, criticou a investida dos candidatos da direita. Segundo ele, “As pessoas viam esses vídeos, viam essas músicas, e não queriam isso para elas. As pessoas viam o Pavanato dançando e achavam mais repugnante que um petista clássico. Soa muito escroto.”
Fonte: G1 Pop & Arte